Quando se fala em câncer de mama, a primeira imagem que costuma vir à cabeça é a de um nódulo. De fato, perceber um caroço novo na mama é um dos sinais mais conhecidos da doença e deve ser investigado. Mas limitar a atenção ao que conseguimos sentir com as mãos pode criar uma falsa sensação de segurança. Algumas alterações mamárias se manifestam de outra maneira e, em determinados casos, o primeiro aviso pode estar justamente na pele.
Mudanças recentes na aparência das mamas também merecem ser observadas. Uma delas é o aspecto conhecido como “casca de laranja”, quando a pele fica espessada, com pequenos pontos de retração que lembram a superfície da fruta. Também devem chamar a atenção áreas que afundam ou repuxam, inchaço, aumento de volume de uma das mamas e vermelhidão persistente sem uma causa evidente.
Isso não significa que toda alteração na pele seja câncer. Dermatites, alergias, infecções, traumas e outras condições benignas podem provocar vermelhidão, irritação ou mudanças na textura. O ponto fundamental é não tentar estabelecer o diagnóstico apenas pela aparência. Uma alteração nova, persistente ou que progride precisa ser avaliada, especialmente quando ocorre em apenas uma das mamas ou vem acompanhada de outras mudanças.
O mamilo também merece atenção
Outro local que pode fornecer sinais importantes é o mamilo. Retração que surge recentemente, descamação persistente, coceira e prurido, formação de crostas, vermelhidão e secreção espontânea, principalmente quando sanguinolenta, são alterações que justificam investigação. Existe, inclusive, uma forma rara de câncer chamada doença de Paget da mama, que compromete a pele do mamilo e da aréola e pode inicialmente se parecer com eczema ou outra doença dermatológica.
Há ainda o câncer de mama inflamatório, um tipo raro e agressivo que merece ser lembrado justamente porque muitas vezes não se apresenta como um nódulo palpável. Ele pode provocar vermelhidão extensa, edema, aumento rápido do volume da mama, sensação de calor e espessamento da pele, inclusive com aspecto de casca de laranja. Como alguns desses sintomas podem se confundir com processos infecciosos, a persistência ou progressão do quadro exige reavaliação médica.
Observar não substitui os exames
Conhecer as próprias mamas não significa viver à procura de sinais de câncer nem retomar a antiga ideia de que existe uma técnica rígida de autoexame capaz de fazer o diagnóstico precoce. O objetivo é mais simples: saber como as mamas normalmente são para perceber quando algo mudou. Essa familiaridade pode acontecer no banho, ao se vestir ou diante do espelho.
Também é importante deixar claro que observar e apalpar as mamas não substitui o rastreamento recomendado para cada mulher. O câncer de mama pode estar presente antes de provocar qualquer alteração visível ou palpável, e é justamente aí que exames de imagem, especialmente a mamografia, desempenham papel essencial. Da mesma forma, uma mamografia recente sem alterações não deve ser usada como motivo para ignorar um sinal novo que surgiu depois do exame.
Quando uma mudança é identificada, o mastologista considera idade, histórico, tempo de evolução e exame físico e, quando necessário, solicita exames de imagem ou biópsia.
A mensagem mais importante é evitar os dois extremos: nem entrar em pânico diante de qualquer mudança, nem ignorá-la porque não existe um caroço. A maioria das alterações mamárias não será causada por câncer, mas é a avaliação adequada que permite fazer essa distinção. Cuidar das mamas também é olhar. Às vezes, antes que algo possa ser sentido pelas mãos, o corpo já começou a mostrar que merece atenção.
*Texto escrito por Dra. Giovanna Gabriele (CRM 133.713 | RQE 48.195 / 48.196), Médica mastologista e membro da Brazil Health

