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Saída do Hamas de Gaza aumenta pressão sobre Israel – 06/07/2026 – Mundo

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O grupo terrorista Hamas, que controla a parte da Faixa de Gaza não ocupada por Israel, disse nesta segunda-feira (6) que renunciará ao comando do chamado comitê de emergência que conduz o governo civil do território. A medida abre caminho para que um grupo tecnocrático formado por especialistas palestinos assuma o controle administrativo, ainda que não militar, do território.

Isso estava previsto no plano de paz assinado entre as partes em outubro de 2025 e patrocinado por Donald Trump —assim como o desarmamento do grupo, que, entretanto, ainda não estabeleceu um cronograma para entregar suas armas.

Especialistas ouvidos pela Folha avaliam que a decisão do Hamas tem efeito mais simbólico do que prático. A consequência imediata seria o aumento da pressão sobre Israel para que cumpra sua parte do acordo de paz, como a retirada das tropas do território e a entrada de materiais de construção.

“Trata-se de uma manifestação de intenções, cedendo à pressão dos EUA e da comunidade internacional e demonstrando boa vontade em relação ao acordo”, diz João Koatz Miragaya, mestre em história pela Universidade de Tel Aviv e assessor do Instituto Brasil-Israel. “Suspeito que o Hamas saiba que Israel não vai cumprir com a sua parte —não por livre e espontânea vontade—, o que também influencia a decisão.”

Quando o cessar-fogo entrou em vigor, Israel concordou em recuar, mas a primeira fase ainda previa que Tel Aviv controlasse 53% do território palestino. Hoje, soldados israelenses ocupam entre 65% e 77% da Faixa de Gaza, de acordo com estimativas da ONU e do próprio Hamas, respectivamente. O governo Binyamin Netanyahu diz que os avanços acontecem em resposta a ataques e violações do acordo por parte do grupo terrorista.

Miragaya afirma que, com o fim da primeira fase, o processo encontra-se em um impasse. “Israel diz que o Hamas não cumpre sua parte, por isso avança [sobre Gaza]. O Hamas diz que Israel não permite a entrada de ajuda humanitária e materiais de construção”, o que, segundo Tel Aviv, poderia ser usado para reconstruir capacidades militares do grupo terrorista.

“Ninguém na comunidade internacional ou no governo Trump parece interessado em solucionar esse impasse. A decisão [do Hamas de abrir mão do governo] quebra um pouco isso e pressiona Israel, que ainda impede a entrada dos membros da comissão tecnocrática em Gaza”, afirma o especialista.

Para o professor de relações internacionais Danny Zahreddine, da PUC Minas, “a questão nevrálgica é o desarmamento do Hamas”. “O anúncio da renúncia ao governo civil sem um cronograma de entrega de armas pode criar uma situação parecida com a do Hezbollah no Líbano —um grupo armado que não controla a política [embora participe dela, como partido político], mas pressiona Israel“, afirma.

Zahreddine avalia que, dessa forma, o Hamas pode acabar tendo mais liberdade de ação do que antes: “Para Israel e a Autoridade Palestina, que não quer um rival como o Hamas, essa é uma realidade muito difícil de aceitar”.

Segundo ele, a medida pode ser uma tentativa do grupo de conseguir condições mais favoráveis para o seu desarmamento. “O Hamas já concordou com entregar armamento pesado [como artilharia e foguetes], mas não querem entregar armas leves [metralhadoras, pistolas] por uma questão de sobrevivência: há muitos grupos hostis ao Hamas em Gaza, incluindo gangues apoiadas por Israel“, afirma o professor.

“De forma pragmática, é necessário, primeiro, que os palestinos assumam o controle das autarquias em Gaza, e segundo, que o Hamas entregue suas armas, seja ao comitê de tecnocratas, seja à Autoridade Palestina”, diz Zahreddine. “Netanyahu, por sua vez, vai manter discursos bélicos porque a guerra lhe convém, porque quer continuar a colonização e ocupação do território palestino.”

André Lajst, o presidente-executivo do grupo pró-Israel StandWithUs Brasil, diz que Tel Aviv não tem interesse em protelar a implementação do acordo. “Em Israel, a impressão era de que haveria um confronto com o Hamas em breve”, afirma.

“[O grupo palestino] estava se rearmando, recrutando, fazendo progresso militar. Aí, a imprensa israelense noticia que o chefe do Conselho da Paz de Trump estava prestes a anunciar que o Hamas não cumpre sua parte do acordo —o que daria um salvo-conduto para uma operação militar israelense. A medida [do Hamas desta segunda] pode ser uma forma de se antecipar a isso”, diz Lajst, que é cientista político e ex-oficial acadêmico da inteligência da Força Aérea israelense.

Para ele, a saída do Hamas do governo civil de Gaza é positiva para Israel, mas pode acarretar pressão internacional para que Tel Aviv ceda em algum ponto em troca. “Israel só vai se retirar de Gaza caso exista outro grupo armado que controle a região militarmente, não só administrativamente.”

O analista diz ainda que “o Hamas não representa a justa causa palestina, e quanto mais cedo for desmantelado, melhor será para que os palestinos reivindiquem seus direitos e para que os israelenses possam negociar com lideranças palestinas razoáveis.”

Para Miragaya, “o Hamas está disposto a entregar a administração civil de Gaza, mas aposta que, mesmo assim, vai continuar controlando quadros técnicos indispensáveis para o funcionamento das instituições. Hoje, os serviços que funcionam em Gaza —universidades, hospitais, creches, a polícia— são operados pelo Hamas”.

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