Guadalupe tornou-se departamento francês em 1946. Seus habitantes passaram a ser formalmente franceses. Mas, quando deixam o Caribe rumo à metrópole, atravessam, além do Atlântico, a mentira.
São cidadãos. Mas chegam à França como imigrantes, mão de obra barata. Negros. “De onde você vem?”, repetiu a escritora francesa Estelle-Sarah Bulle o questionamento que ouve sempre em seu país. Ao responder “banlieue parisiense” (subúrbios parisienses), vem a pergunta: “E antes?”
Tive a alegria de dividir, na última sexta-feira (5), uma mesa com Estelle na Feira do Livro, mediada pela generosa Adriana Ferreira Silva. De pai guadalupense e mãe franco-belga, Estelle falou de seu romance “Onde o vento faz a curva”, publicado originalmente em 2018, vencedor do Prix [du métro] Goncourt 2019 e de outras 11 premiações, lançado agora no Brasil pela Editora 34.
O título “Là où les chiens aboient par la queue” (“Onde cachorros latem pelo rabo”) remete a um lugar afastado, quase impossível. O ditado comum entre os nascidos nas Antilhas tem uma pronúncia específica para quem fala crioulo. Por isso, a expressão parece condensar o atrito que a língua francesa acomoda e tensiona, marca importante em todo o livro.
Críticos franceses o analisaram como narrativa de uma geração antilhana presa entre dois mundos. Fórmula pouco adequada, a meu ver, para compreender o colonialismo. Porque não há dois mundos equivalentes. Há uma ilha convertida em departamento. Há cidadania sem simetria. E há racismo.
Do século 17 ao 19, centenas de milhares de africanos sequestrados foram escravizados nas colônias francesas do Caribe para sustentar a economia do açúcar, principal riqueza do império.
O posterior deslocamento em massa da colônia para a metrópole foi uma tecnologia de gestão populacional motivada por questões de trabalho, gênero e controle social, inclusive na tentativa de reduzir tensões nos territórios ultramarinos. A Revolução Haitiana pairava como a lembrança de que pessoas escravizadas podiam derrotar o império.
Nas narrativas em primeira pessoa de Antoine, Lucinde, Maninho e a sobrinha temos a oportunidade de sentir as contradições que tantas vezes são vendidas como ascensão social.
Não espere do livro qualquer denúncia direta. A hierarquia colonial também aparece na própria comunidade, na cor da pele, no casamento desejável, na vergonha do crioulo, na ambição de parecer mais próximo da França do que da ilha. Assim como no Brasil, em Guadalupe ser mais claro podia significar “estar a salvo”.
Muito da proximidade da diáspora negra é possível identificar neste livro. Como a experiência racista colonial transformou pessoas em objetos. Como as mulheres são empurradas a serem guardiãs das comunidades. Como o crioulo e o “pretuguês” são inferiorizados. Como sair –da zona rural, da banlieue, da periferia– é valorizado como progresso.
As versões da sobrinha, do pai e das duas tias montam um caleidoscópio dos mais vibrantes e nos convocam às diferenças de percepções de pessoas negras. Com as defesas, os silêncios, os autoelogios, as acusações mútuas, as fabulações de cada personagem, a autora vai costurando um pano suficientemente bom para cobrir a necessidade de conhecer de onde vem.
O Brasil deveria ler o romance com atenção. Principalmente aquele que acredita no republicanismo francês e em suas promessas, desconsiderando que liberdade, igualdade e fraternidade –lá e aqui– só existem para os escolhidos. Universal limitado à cor da pele.
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