Comparo as relações étnico-raciais no Brasil a um tecido esgarçado, surrado pelo atrito e prestes a se romper pelo desgaste contínuo causado pela violação ou negação sistemática de direitos à população negra.
Sei bem que este é um país racista (machista, misógino e homofóbico também). Essa consciência me impede de nutrir a pretensão de contar com a concordância “de geral” em relação ao que penso e escrevo.
Para dimensionar as implicações do racismo é necessário reconhecer que o racismo existe. E que se trata de um sistema que opera para impedir —ou ao menos dificultar— a ascensão de pessoas pretas e pardas.
Negritude não é, nem nunca foi, sinônimo de incapacidade, incompetência, ausência de mérito ou inferioridade intelectual. Bem pelo contrário. Temos inúmeros profissionais pretos e pardos competentes e aptos a exercer os mais diversos ofícios. Mas, em regra, faltam acesso e oportunidades para essas pessoas.
É bom lembrar também que civilizações africanas foram pioneiras em várias áreas do conhecimento, como a matemática, a astronomia, a arquitetura e a metalurgia —uma pá de cal na bandeira da superioridade étnico-racial eurocêntrica.
Num país que tem o racismo como princípio organizador do Estado e da sociedade, a exclusão étnico-racial é sinônimo de preconceito, discriminação, negação de direitos e descumprimento de preceitos constitucionais basilares.
Infelizmente ainda há setores desta nação (erguida com o trabalho forçado de negras e negros) que resistem à ideia de reparação aos descendentes dos escravizados. Nosso tecido social está esgarçado pela ação de gente egoísta, preconceituosa e racista que insiste em negar o óbvio. Uma sociedade tão desigual não é justa.
Me pergunto como alguém pode achar “normal” a ausência de pessoas pretas e pardas em postos de comando e gestão do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, das empresas…, sendo esse um país majoritariamente negro (56%, segundo o IBGE).
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