Mais de três anos depois da eclosão do escândalo, a fraude no balanço da Americanas continua sob investigação. Na semana passada, uma operação deflagrada pela Polícia Federal mirou um acionista de referência, Carlos Alberto Sicupira, ex-conselheiros, executivos e ex-executivos de bancos credores da gigante varejista.
O caso teve início em janeiro de 2023, quando a empresa divulgou, em comunicado ao mercado, que havia encontrado “inconsistências” de R$ 20 bilhões no balanço —um valor assustador ante um patrimônio líquido calculado em R$ 14,7 bilhões na época. Em junho daquele ano, um novo comunicado utilizou a palavra “fraude” e elevou a conta para R$ 25,3 bilhões.
Calcula-se que a manipulação da contabilidade tenha ocorrido ao longo de oito anos, concentrada nas chamadas operações de risco sacado —por meio das quais bancos antecipam a fornecedores valores devidos pela varejista, tornando-se credores desta. A Americanas recorreu de forma crescente a esse expediente, sem fazer os registros na forma devida em seu passivo.
Ao final de março do ano passado, 13 ex-executivos e ex-funcionários da empresa foram denunciados pelo Ministério Público Federal por manipulação de mercado, falsidade ideológica, uso de informação privilegiada e organização criminosa. Isso não encerrou a apuração, porém.
Além da segunda fase da Operação Disclosure, da PF, há sete procedimentos relativos à fraude contábil em curso na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia responsável por regular e fiscalizar o mercado de capitais —e, infelizmente, não conhecida pela celeridade e pela eficiência nos últimos anos.
O órgão tem padecido com deficiências no quadro de pessoal e indicações de apadrinhados políticos para sua cúpula. No início deste 2026, apenas duas das cinco diretorias estavam preenchidas.
Ademais, o caso Americanas deixou evidente que o sistema de fiscalização e auditoria de empresas, mesmo gigantes, é frágil; que o risco de punição não é suficiente para conter a delinquência. Trata-se de uma empresa quase centenária, que estava no mais alto nível de governança da Bolsa.
Esse não é um escândalo de corrupção de políticos, governantes e servidores públicos, mas demonstra que desmandos privados podem ter amplo impacto.
Fornecedores tiveram prejuízos, empregos foram perdidos. Ficou evidente que é preciso fortalecer, sobretudo, a confiança de investidores de todos os portes nas instituições do mercado.

