A contagem regressiva para o descontrole do voo 2283 da Voepass durou exatos 20 segundos. Um laudo pericial da Polícia Federal, obtido pelo GLOBO, detalha pela primeira vez o que ocorria no interior da cabine de comando durante a estreita janela de tempo em que a queda em Vinhedo (SP) ainda poderia ser evitada. Segundo a investigação, no momento em que a aeronave enfrentava uma degradação severa provocada pelo gelo, os pilotos priorizavam tarefas burocráticas, isolando-se da real situação de perigo.
O documento elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) da PF esquadrinha a inércia da tripulação logo após o acionamento do alerta de Increase Speed (aumentar velocidade). O aviso é a última linha de defesa antes de um estol — a perda de sustentação aerodinâmica. Em vez de assumirem o controle manual e iniciarem as manobras emergenciais previstas pelo fabricante, o comandante e o copiloto mantiveram o foco na preparação administrativa para o pouso.
A perícia criminal revela que, durante esses chamados “20 segundos de ouro” que antecederam a entrada do ATR 72-500 em um parafuso irreversível, a dupla estava ocupada transmitindo mensagens de rádio para a base de operações da companhia (o setor de despacho), localizada em Guarulhos. Simultaneamente, os aviadores dividiam a atenção com a leitura de checklists ordinários e a condução do briefing (repassem de instruções) de aproximação.
O laudo é contundente ao descrever a total perda de consciência situacional dentro do cockpit. De acordo com o texto assinado pelos peritos federais, no instante de maior gravidade técnica do trajeto, a tripulação “manteve seu foco de atenção em tarefas rotineiras da cabine e em comunicações com o despacho”.

