Que se passa com Homero? Que se passa com Christopher Nolan?
Um extraterrestre que tivesse visitado o planeta Terra por estes dias ficaria abismado com a discussão. De repente, meio mundo acordou para um filme que, segundo os críticos mais duros, não faz justiça à obra de Homero.
Minha primeira reação foi bocejar: não faz justiça? Claro que não: só Homero faz justiça a Homero. Mas o ruído continuou tão ensurdecedor que, temendo e tremendo pelo destino da civilização, fui investigar.
Gostei do filme, aviso já, apesar de alguns diálogos serem manifestamente anacrônicos. É evidente, para quem leu a obra, que a “Odisseia” de Nolan só a ele pertence.
No filme, os feitos heroicos dos gregos em Troia não merecem celebração. A astúcia de Ulisses com o famoso cavalo de madeira não é apreciada pelos deuses —é apresentada, aliás, como um gesto de impiedade.
O rapto de Helena também não é uma violação da hospitalidade que Menelau concedeu a Páris —é um mero pretexto para interesses comerciais vulgares.
Certo, tudo certo. E daí?
Escutando alguns críticos, parece que só Christopher Nolan se inspirou em Homero para apresentar uma versão pessoal desse universo lendário. Será que os puristas leram “As Troianas”, de Eurípides, uma condenação da guerra de Troia ainda mais feroz do que a de Nolan?
Será que leram a “Eneida”, de Virgílio, com um Eneias ainda mais torturado pelas memórias dessa guerra do que o Ulisses do filme?
E o que dirão de Dante, já num contexto cristão, que reservou para Ulisses um lugar no inferno? Na “Divina Comédia“, o rei de Ítaca é um dos “conselheiros da fraude”: alguém que, abusando da duplicidade, arrastou os outros para a destruição.
Na versão de Dante, nem o amor por Telêmaco, Laertes ou Penélope bastou para detê-lo: partiu de novo, para novas aventuras, porque sua ambição não tinha limites.
As virtudes de Ulisses, na voz de Homero, pertencem a um mundo próprio. Nesse mundo, a vergonha e a honra são mais importantes do que a consciência individual e a culpa. É um mundo de glória guerreira, não de penitência e expiação.
Mas o nosso mundo já não é esse —afirma Dante, e qualquer autor posterior que tenha usado a “Odisseia” para meditar sobre a natureza anti-heroica da guerra. Era inevitável que Christopher Nolan, depois de “Oppenheimer“, também chegasse ao mesmo destino. Ulisses, tal como a bomba atômica, também foi um destruidor de mundos.
Discordo dos críticos de boa-fé, que se afastam do filme por razões literárias ou artísticas. Mas é preciso distingui-los de um outro tipo de críticos que, sobretudo nos Estados Unidos, falam da “Odisseia” e de Christopher Nolan por razões políticas nem sempre compreendidas pelos ingênuos.
Explico melhor: tempos atrás, nesta Folha, dei conta do livro de Laura K. Field sobre a “nova direita” Maga. Intitulado “Furious Minds”, o livro dedica um capítulo inteiro ao fascínio que uma parte dessa direita sente pelo mundo homérico e pela Idade do Bronze.
Não é por acaso que uma das obras mais influentes dessa turma se chama “Bronze Age Mindset”, um panegírico tosco à suposta virilidade dos heróis de Homero, por contraposição à cultura supostamente efeminada e proto-socialista da Idade do Ferro que a sucedeu.
A ideia, ao que parece, é recuperar o espírito dos gregos em pleno século 21 e deixar para trás a “ginocracia” de um mundo controlado pela sensibilidade feminina.
O leitor, mantendo a sanidade, obviamente ri desses dementes. O problema é que eles não riem. Falam completamente a sério, e suas propostas vêm influenciando a teoria e a prática da nova direita —um desprezo cada vez mais assumido pela democracia liberal, uma defesa cada vez mais aberta de lideranças fortes, absolutas e viris. O fascismo em novos trajes.
Não à toa, a campanha mais barulhenta nas redes contra Nolan tem as digitais desses guerreiros. Não é a infidelidade do filme à obra literária que os perturba —uma discussão que seria legítima. Nem sequer o elenco multirracial que Nolan apresenta —isso é só boi de piranha.
O problema é ter um diretor talentoso que usa os textos sagrados dessa nova religião para mostrar o outro lado da “mentalidade da Idade do Bronze”: a crueldade, a destruição e autodestruição a que as “virtudes viris” podem nos levar quando não são temperadas pela prudência, pela compaixão e pela humanidade.
Nada que o homem do século 20 já não conheça: essa virilidade já foi vendida faz mais de cem anos. E, como o Ulisses de Nolan, ainda habitamos as sombras dessas ruínas.
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