Quando foi anunciado que um tablet seria o antagonista do próximo filme da franquia Toy Story, a reação foi imediata. A escolha tocou em uma preocupação crescente entre pais, educadores e especialistas: qual é, afinal, o impacto da tecnologia, especialmente das telas, na infância?
A preocupação é legítima. O avanço das telas na rotina das crianças merece atenção. Mas a repercussão em torno do filme também revela algo importante sobre a forma como costumamos discutir o tema. Há anos, boa parte desse debate gira em torno da mesma pergunta: quanto tempo as crianças passam diante das telas?
O tempo de exposição importa, mas não explica sozinho os efeitos da tecnologia quando utilizada por crianças. O que faz diferença é a forma como ela é utilizada, os objetivos envolvidos e a mediação que acompanha essa experiência.
Talvez exista algo de reconfortante em transformar a tecnologia na vilã da história. Quando fazemos isso, a discussão parece mais simples. O problema ganha um rosto, uma tela, um dispositivo. Porém, a realidade é mais complexa. O que influencia o desenvolvimento de uma criança não é apenas a presença da tecnologia em sua rotina, mas a forma como ela aprende a se relacionar com ela.
Durante muito tempo, educar significou ampliar o acesso à informação. Hoje, a informação está em toda parte. O diferencial já não está em encontrá-la, mas em saber interpretá-la, questioná-la e transformá-la em conhecimento
Por isso, a pergunta que deveria ganhar mais espaço não é apenas quanto tempo as crianças passam conectadas. A questão mais relevante é que tipo de relação com a tecnologia estamos ajudando a construir.
Essa diferença importa porque a tecnologia deixou de ser um elemento periférico da vida contemporânea. Ela já faz parte da realidade de uma geração que nasceu conectada e que crescerá em um ambiente ainda mais digital, automatizado e influenciado pela inteligência artificial. Esperar que crianças se desenvolvam à margem dessa realidade é ignorar o mundo em que elas efetivamente viverão, estudarão e trabalharão.
Isso não significa abandonar limites. Crianças precisam brincar, conviver, explorar o mundo físico, construir vínculos, desenvolver imaginação e aprender a lidar com frustrações. Nada disso perdeu importância. Como alguém que trabalha criando educação tecnológica para crianças, sei que soa conveniente defender o uso de telas. Mas o que vejo nas salas de aula todos os dias é que existe uma diferença importante entre limitar o uso e educar para o uso.
A primeira tarefa é relativamente simples. A segunda exige presença, diálogo e mediação. Em vez de apenas proibir, pergunte no jantar: “Como você resolveu aquele problema no jogo?” ou “O que a IA respondeu sobre o seu trabalho escolar? Você acha que ela está certa?”.
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Durante muito tempo, educar significou ampliar o acesso à informação. Hoje, a informação está em toda parte. O diferencial já não está em encontrá-la, mas em saber interpretá-la, questioná-la e transformá-la em conhecimento. Nenhuma dessas competências surge automaticamente porque alguém recebeu um dispositivo ou acesso à internet. Elas dependem de orientação, prática e repertório.
A chegada da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente. As crianças que hoje estão nas escolas crescerão convivendo com ferramentas capazes de responder perguntas, criar imagens, produzir textos e apoiar processos de aprendizagem em poucos segundos. A pergunta não é se elas usarão inteligência artificial. Elas usarão. A questão é se chegarão à vida adulta sabendo quando confiar nessas ferramentas e quando questioná-las.
Em um mundo onde as respostas estão cada vez mais acessíveis, a capacidade de fazer boas perguntas se torna ainda mais valiosa. Saber comparar fontes, identificar vieses, reconhecer limitações e exercer julgamento próprio será tão importante quanto dominar qualquer ferramenta tecnológica.
Quando tratamos a tecnologia apenas como inimiga, empobrecemos o debate. Dispositivos não educam sozinhos. O que molda a experiência digital de uma criança são os exemplos que ela observa, os limites que recebe, as conversas que tem e a qualidade da presença dos adultos ao seu redor.
Talvez por isso o ponto central dessa discussão não esteja no tablet de Toy Story. O desafio da educação contemporânea não é criar uma infância sem tecnologia ou telas. É formar crianças capazes de conviver com elas sem abrir mão da curiosidade, da criatividade, do pensamento crítico e da autonomia. O futuro não exigirá menos tecnologia das próximas gerações, exigirá mais discernimento.
Henrique Nóbrega é diretor de tecnologia do CNA+.

