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Não adianta falar em soberania e fechar os olhos para os problemas do país

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Em época de eleição, o roteiro se repete em qualquer esquina de bairro brasileiro. Chega o candidato, chega o abraço apertado, chega o sorriso já gasto de tanto uso. Numa mesa de plástico, sem constrangimento de nenhuma das partes, negocia-se um milheiro de tijolos, uma vaga em órgão público, um favor de qualquer ordem. Ninguém ali finge não saber o que está fazendo. É troca consciente, quase contratual: toma o seu, dá-me o meu.

É dessa cena miúda, repetida há décadas, que nasce a pergunta que interessa agora que a palavra soberania voltou a dominar o noticiário por causa do impasse comercial entre Brasil e Estados Unidos: perdemos a soberania de pensar muito antes de alguém ameaçar a soberania do país.

Soberania, em sentido estrito, é o poder supremo e independente de um Estado, que não reconhece autoridade acima de si. É definição sólida, quase geométrica. Mas a palavra também se esgueira como cobra: muda de forma conforme a mão que a maneja, vira veneno ou vira água, dependendo de quem fala. E o uso mais comum que ela recebe hoje, em discursos de toda origem ideológica, não é o do dicionário. Aponta-se para o de fora, para o suposto opressor, para a ameaça estrangeira, enquanto o que realmente muda de mãos acontece por dentro.

O mecanismo é conhecido de quem observa comportamento coletivo. Uma comunidade – familiar, religiosa, política, não importa o rótulo – funciona como alcateia: quando um integrante é atacado, os demais retaliam por instinto, independentemente de haver razão. Dentro dessa alcateia, quase sempre existe alguém mais esclarecido do que os outros e que usa esse instinto tribal como massa de manobra para se manter à frente. O restante do grupo, no calor da retaliação, acredita estar exercendo independência. Está, na verdade, sendo usado como marionete.