Neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Banco Central autônomo tem carregado nas costas a política econômica, ao preservar, sem ajuda do governo, critérios técnicos, coerência, previsibilidade e clareza de propósitos. No entanto essa tarefa, ao que parece, tornou-se mais difícil.
Foi o que deixou transparecer a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, que decidiu reduzir a taxa básica de juros, Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
O corte não foi surpreendente, mas tampouco deixa de suscitar questões —afinal, a inflação está em alta e acima do teto oficial de 4,5% em 12 meses, tanto no presente quanto nas projeções para o encerramento deste 2026. O comunicado que acompanhou a medida gerou dúvidas adicionais.
Causou espécie entre os analistas a afirmação do documento de que a inflação poderá convergir à meta de 3% no primeiro trimestre de 2028. Até então, as explicações do Copom costumavam mencionar apenas o horizonte de 18 meses, que desta vez se encerra no último trimestre de 2027, no qual se consideram mais palpáveis os impactos das decisões da política monetária.
A mudança pode parecer sutil, mas sabe-se que os textos do BC são planejados nos mínimos detalhes para dar sustentação às expectativas de mercado.
Agora, porém, o BC prefere não dar maiores sinais a respeito de seus próximos passos. Mais uma vez, diz que a evolução dos juros dependerá de “novas informações”, como acerca da guerra no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços do petróleo.
Esse problema, de fato, é complexo e global. A trégua recém-firmada entre Estados Unidos e Irã ainda não dá segurança sobre a normalização da oferta de petróleo, e uma alta da inflação já se materializou.
O Banco Central Europeu elevou seus juros; o americano Federal Reserve indicou que essa não é uma hipótese descartada. Há pela frente, ademais, os efeitos do fenômeno climático El Niño.
O Brasil tem ainda suas peculiaridades, em boa parte listadas no comunicado do BC, mesmo que em linguagem tecnocrática. Quando cita “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial”, a instituição claramente se refere à ofensiva de Lula pela reeleição.
A aceleração do gasto e do crédito público, por meio da sucessão de aparentes bondades distribuídas pelo Planalto, reduz a eficácia da Selic estratosférica em esfriar a economia e a inflação. Não bastasse, agrava a situação já alarmante das contas públicas e deixa mais ajustes a cargo da próxima administração.
O BC não exagera ao descrever o cenário atual como de “forte aumento da incerteza”. Sua missão será evitar que o tumulto econômico se transforme em perda mais aguda do poder de compra da moeda, o que prejudicaria sobretudo a população pobre.

