Pressionados pela repercussão negativa da aceleração da dívida pública às vésperas do início da campanha eleitoral, integrantes do governo federal acionaram as baterias para culpar o BC (Banco Central) pelo crescimento do endividamento em mais de 10 pontos percentuais ao longo de três anos e meio do governo Lula 3.
Mas imagine que você foi contratado para um emprego e o seu trabalho envolve apenas uma única tarefa: manter a temperatura da sala de trabalho em 20 graus Celsius.
Para executar essa tarefa foi conferido a você um único instrumento: o controle remoto do ar-condicionado. Você pode aumentar ou reduzir a temperatura a cada 45 minutos.
Nesse intervalo de tempo, você aguarda para ver como o ambiente da sala reage à elevação, redução ou manutenção da potência do ar-condicionado.
Há uma pequena sutileza. É preciso considerar o tempo entre o comando no controle remoto e o intervalo necessário para que o ar, mais ou menos gelado, se propague e faça efeito na temperatura da sala.
Desconsiderar essa defasagem promoveria elevações e reduções bruscas na potência do ar e na temperatura, esfriando e esquentando excessivamente a sala, passando pelos 20 graus sem estabilizar nessa temperatura, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo.
Só que o presidente da empresa que decidiu estabelecer a meta da temperatura da sala começou a se queixar de frio justamente quando a temperatura da sala começou a cair e se aproximar dos 20 graus.
Incomodado, ele se levanta da cadeira e começa a abrir as janelas do escritório. É verão e o ar quente começa a entrar na sala, elevando a temperatura, distanciando-a da sua meta.
Não há muita dúvida sobre o que fazer: aumentar a potência para compensar a abertura das janelas e esfriar a sala, buscando a meta. No dia seguinte, o colega traz aquecedores e inicia uma escalada de forças contrárias sobre a temperatura ambiente.
Você coloca o ar-condicionado em 16 graus e espera pelos efeitos defasados da dissipação do ar pela sala.
Essa anedota encontra paralelo na realidade: as medidas de estímulo ao crédito e ao PIB aumentaram o calor da sala, mas, para o governo, a culpa é do BC.
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