Um espanhol e um brasileiro assinam este artigo: um deles, com fartos motivos para estar satisfeito com o futebol. O outro, com razões para estar decepcionado: dias antes de testemunhar a eliminação brasileira da Copa do Mundo, viu seu time do coração firmar um contrato multimilionário com uma conhecida plataforma de conteúdo adulto —cujos proprietários detêm, também, um site de acompanhantes.
Tendo imposto restrições ao acordo, o Corinthians não escapou às reações. Assim o caso foi narrado ao autor europeu: é como se, findos os festejos pelo triunfo mundial da seleção espanhola, o Barcelona, dono da segunda maior torcida do país, passasse a ostentar em seus uniformes —e, portanto, nos estádios, na TV, na internet— a logomarca de uma empresa que promove a pornografia e a prostituição.
Pelo mundo afora, a idade da primeira exposição a conteúdo sexualmente explícito caiu vertiginosamente nas últimas décadas: na Espanha, dados oficiais falam em 11 anos, em média; no Brasil, pesquisas apontam que ocorre por volta dos 12 anos, com frequentes relatos de casos ainda mais precoces. Trata-se de mais um fenômeno atribuído à internet: o que antes estava sob a guarda dos donos de bancas de jornais ou restrito a horários tardios de televisão, hoje está à distância de um clique. Que as empresas que lucram com esse tipo de conteúdo, porém, passem a ocupar, sem qualquer pudor, os uniformes que dão vida à paixão de milhões de brasileiros é um problema ainda mais grave.
Já não bastasse o desconhecimento geral acerca dos males do acesso precoce à pornografia —prejuízos que ultrapassam a esfera individual e têm impactos severos na saúde e na segurança públicas. Uma meta-análise de estudos conduzidos em sete países concluiu que o consumo pornográfico está associado a uma maior probabilidade de perpetração de agressões sexuais, verbais ou físicas (especialmente contra mulheres); outras pesquisas o vinculam a acasos de ansiedade, depressão, baixa autoestima, disfunções sexuais e comportamentos de risco.
Na Espanha, o Ministério Público relacionou o consumo de “conteúdo adulto” ao salto dos delitos sexuais cometidos por menores e considera que, para 30% dos jovens espanhóis, a indústria da pornografia online é hoje a única fonte de “educação” afetivo-sexual disponível.
Se o acesso precoce a conteúdos explícitos é inimigo do bem comum, extrapolando quaisquer disposições morais, por que o combate parece tão difícil? Revestido de boas intenções, um inimigo discreto pode corroer os poucos esforços movidos contra um mercado bilionário: muitas famílias creem ser as únicas responsáveis por manter crianças e adolescentes longe desse mal.
É verdade que, tal qual a epidemiologia demonstra que as vacinas são um dos ativos mais eficazes na prevenção de doenças graves em larga escala, famílias preparadas para dar bons exemplos e intervir quando necessário são uma barreira inestimável contra a pornografia e seus males. Mas, mesmo para os pais mais ciosos, é impossível passar incólume pela cultura: na prática, as melhores regras podem sucumbir ao telefone celular do colega de escola ao lado.
Eis por que é urgente combater a onipresença da pornografia em todas as frentes: em primeiro lugar, repensando os limites de sua publicidade, dificultando o acesso de menores e, claro, negando-lhe a naturalidade com que hoje se insinua para dentro de nossas casas, por meio do que foi feito para nos unir.
Como em toda epidemia, o tempo de agir é antes que o contágio pareça normal.
E o futebol não pode servir de vitrine para quem lucra destruindo a infância: uma derrota que nenhuma torcida deveria aceitar em silêncio.
TENDÊNCIAS / DEBATES
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