Redação Tribuna do Norte
•
•
00h00

Escrever é desafio. Fácil, se é crônica; mais difícil se é um conto; mais difícil ainda se é um romance. Escrever certo é um direito, quando os governantes são conscientes da lição de Paulo Freire de que a educação é uma prática da libertação. Escrever bem é raro, exige boa formação intelectual para a capacidade de formulação. Só sabe formular quem tem repertório e, repertório, só se constrói com a leitura. Sob pena de não ser possível perceber a própria pobreza de ideias.
Nunca escrevi um livro. O que foi publicado, até hoje, saiu das páginas dos jornais, esse livro das folhas grandes e soltas que após a sua leitura, encerrado o café da manhã, se tanto, voa para o abismo do cesto de papéis inúteis. Sempre tive um certo pudor diante do livro. Como se fosse um medo de nada acrescentar ao dito e sabido. Uma vez, ouvi de Câmara Cascudo que o ato de escrever deve ser a tentativa de lançar uma luz sobre algo que não tenha sido bem iluminado.
Não significa desconhecer os corajosos, densos, garantidos pela valiosa erudição. Aqueles que vão além do apenas comum. Os escrevinhadores, não. Esses são tangidos pela habilidade, sem a profundida de que são feitos aqueles grandes escritores. Nestes, há algo de singular, genialmente inesperado. São os bons construtores, diferentes dos muito jeitosos, os que encantam os fáceis. A literatice burla os pobres olhos desatentos, até de forma inconsciente, como se fosse literariedade.
E nada é mais enganador e, portanto, mais letal, do que o sucesso fácil. Reparem que vem sempre na ausência de uma boa crítica literária. Onde não há bons críticos, não há boa literatura. E é fácil constatar, já advertia Câmara Cascudo, em 1918, na sua coluna Bric-à-Brac, nas páginas de ‘A Imprensa’, o jornal do pai. São estes que não ultrapassam os limites do gueto provinciano. Daí, só o talento ser capaz de ir além da última rua, mesmo a mais distante a cruzar fronteiras.
É pobre o conceito de que a província limita. Só os sem talento morrem na sua aldeia. Mas, não se pode negar: há os injustiçados. O verdadeiro provinciano é cosmopolita. Viaja, anda pelo mundo, mesmo nas leituras, e depois retorna à aldeia. O falso provinciano, não. Anda mundos e fundos e volta ao lado da Torre Eiffel, em Paris, de uma fonte de Veneza ou da ponte de Londres, para ser o mesmo que partiu. O passaporte não atesta o bom viajante no exercício das descobertas.
Tivemos grandes nomes na aldeia. Provincianos nas certidões de nascimento, mas cidadãos do mundo. Câmara Cascudo, Octacílio Alecrim, Rodolpho Garcia, Aurélio Pinheiro, Américo de Oliveira Costa, para citar os principais. É fácil saber a explicação: está na grandeza de suas obras. Foram provincianos cosmopolitas, inventores de mundos, navegadores dos grandes mares do saber. Tanto que, deles, não se sabe quais foram os cargos públicos que exerceram. Ora, pra quê?
PALCO
VIDAS – Até final deste ano serão lançadas as memórias do professor Marcos Guerra e o livro de homenagem ao médico Leônidas Ferreira. Duas vidas que fazem parte de nossa história política.
DETALHES – Quem sabe, no seu livro, Marcos Guerra contará o que sofreu durante o governo militar, dentro e fora do país. Um capítulo ainda inédito e que agora chegará aos olhos da História.
SÉCULO – Este julho que caminha marca os cem anos de nascimento do Monsenhor Penha, um evangelizador com a simplicidade dos bons e educador que dedicou toda sua vida aos macauenses.
MAIS – Penha fundou o grupo de escoteiros de Macau, seguindo um sonho do poeta Henrique Castriciano, o fundador no RN, a pedido de Olavo Bilac, em carta publicada na Revista do Brasil.
HISTÓRIA – O advogado Ricardo Sobral conta amanhã, na Quinta Cultural do Instituto Histórico, a partir das 17h, como foi o “Apogeu e a Decadência da Civilização do Açúcar em Ceará Mirim”.
LEGADO – Os seguidores de Edgar Morin plantam hoje, no Campus da UFRN, um Ipê Amarelo como marco do legado do filósofo francês que aqui esteve e semeou os estudos da complexidade.
POESIA – Da poetisa Maria Lúcia dal Farra, ouvindo, como diz, os ecos corridos da sua voz: “Na casa incerta / os dias são longos /abandonados pelo / tempo / que desistiu e desertou dos seus…”.
PALAVRAS – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ouvindo o som raivoso dos que nunca temem os descaminhos: “A intolerância fere a dignidade das palavras. Mesmo as dignas”.
CAMARIM
PENDURICALHOS – O Tribunal de Justiça do RN está entre os sete que o Supremo notificou por possível descumprimento dos limites para penduricalhos. Ao lado de Brasília, Goiás, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro e Rondônia. São Tribunas descumprindo decisões do Supremo?
SUCESSÃO – É aparente a discrição na sucessão de Hélder Heronildes na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Há pedidos, sugestões, conversas e sondagens em torno de pelo menos três nomes. Antes da missa de sétima dia. Nós, ditos imortais, também cometemos pecados mortais.
GRAVE – Uma matéria com quatro páginas, na Folha, de Rafael Cariello, revela: “A distribuição desigual de alunos por escolas é um espelho da desigualdade geral do país: os alunos mais pobres, com as piores notas, e filhos de pais com baixa escolaridade, são concentrados nas piores escolas”.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

