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O Canadá sempre levou seu cotidiano de nação desenvolvida longe dos holofotes, firmando uma imagem de vizinho inofensivo e muito bem-educado dos poderosos Estados Unidos. Tão cortês, aliás, que virou piada interna: “Por que o canadense atravessou a rua? Para pedir desculpas à galinha por ter cruzado seu caminho”, diz uma delas. Seu primeiro-ministro, Mark Carney, um técnico egresso da presidência do banco central canadense e, depois, do Banco da Inglaterra, é tão insosso que ainda nem ganhou apelido de Donald Trump. Pois empurrado pela agressividade ímpar do presidente americano, o canadense Carney vem surpreendendo ao assumir uma causa: bater de frente com a truculência da Casa Branca trumpista, tentando ao mesmo tempo pôr de pé um bloco unido neste propósito. “A alternativa que o Canadá e muitos outros buscam é um realismo baseado em valores, uma abordagem tanto pragmática quanto ética”, disse Carney em concorrida coletiva em Nova York, onde participou da Assembleia-Geral da ONU.
Carney, 61 anos, chegou ao poder quase por acaso, recrutado às pressas pelo Partido Liberal quando seu antecessor, Justin Trudeau, renunciou em meio a uma crise de popularidade. As abrangentes tarifas de Trump contra o Canadá e as insinuações de anexação transformaram o tecnocrata no rosto da resistência nacional. Em um discurso histórico em Davos, em janeiro, tornou-se figura global ao declarar encerrada a “ordem internacional baseada em regras” e conclamar as “potências médias” a firmar alianças que não dependessem dos Estados Unidos — gesto corajoso para um país que vende aos americanos cerca de três quartos do que exporta.
Do discurso à prática, lançou em paralelo ao encontro anual nas Nações Unidas uma iniciativa batizada de Parceiros pelo Multilateralismo (P4M). O objetivo é “criar uma estrutura flexível e aberta para países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a trabalhar para além de suas divergências”, como ele descreveu em um artigo no jornal inglês Financial Times, assinado em parceria com o presidente Lula, o líder do Conselho Europeu, António Costa, e o queniano William Ruto. “Não é um bloco nem uma burocracia. É um novo fórum voltado para instituições universais, coalizões práticas e capacidades que existam fora dos governos”, acrescentou na entrevista na ONU. “Ninguém no Ocidente está tão empenhado em viabilizar uma independência dos EUA quanto Carney”, afirma Stewart Patrick, do centro de estudos americano Carnegie Endowment for International Peace.

A necessidade de um esforço coordenado para cortar o cordão umbilical com os Estados Unidos, defendida pelo Canadá, foi reforçada na semana de abertura da pouco relevante Assembleia-Geral das Nações Unidas, o QG do multilateralismo que virou saco de pancadas da nova ordem ditada pelas grandes potências. Nem o russo Vladimir Putin, nem o chinês Xi Jinping deram o ar da graça, sendo que Xi preferiu desembarcar em Washington para uma visita de Estado, com encontro marcado e jantar de gala na Casa Branca na quinta-feira 24. Trump foi, mas no discurso de 37 minutos (brevíssimo para seus padrões), dominado pela guerra com o Irã, cujo regime ameaçou aniquilar (leia em Imagem da Semana), e pela exaltação dos próprios e duvidosos feitos, fez questão de celebrar os cortes orçamentários que impôs à organização. Até Lula, na fala de abertura da Assembleia, reconheceu que a credibilidade da ONU nunca esteve tão baixa.
Ao mesmo tempo que tenta unir forças para peitar Trump, Carney trata de diversificar a carteira comercial do Canadá. A União Europeia acenou ao país com o status inédito de “membro associado”, uma distinção mais simbólica do que prática, mas que o primeiro-ministro tratou de aproveitar: localizou uma “fronteira com a Europa” nas ilhas de Saint-Pierre e Miquelon, território autônomo francês a 20 quilômetros da província canadense de Newfoundland, e foi até lá apertar a mão de um sorridente Emmanuel Macron. No campo das relações bilaterais, em janeiro fez sua primeira viagem oficial à China e fechou um acordo que derrubou tarifas sobre commodities e produtos industrializados. Também firmou acordos comerciais, de segurança e de parcerias estratégicas com Japão, México e Ucrânia, entre outros. Em dezembro, deve receber em Ottawa o indiano Narendra Modi, restaurando laços praticamente rompidos pelo governo anterior, que acusou a Índia de ordenar o assassinato de um opositor na Colúmbia Britânica, em 2023.
Sem estardalhaço nem grandes jogadas de marketing, Carney vem obtendo invejáveis níveis de aprovação, perto dos 70%. “No campo doméstico ele age como o economista técnico e ortodoxo que é, mas na política externa a oposição a Trump fez dele um rock star que fecha acordos a torto e a direito”, resume Lori Turnbull, diretora da Escola de Administração Pública da Universidade Dalhousie. Tentar descolar o Canadá dos Estados Unidos, com quem compartilha a maior fronteira terrestre do mundo (quase 9 000 quilômetros), e aglutinar em torno do país um bloco com força para enfrentar Trump e seus pares ideológicos são tarefas de imensos desafios e resultados incertos. Carney, com seu discurso direto, suas ironias e sua intensa movimentação internacional — “Se não nos sentarmos à mesa, estaremos no menu”, cutucou famosamente em Davos — , parece decidido a testar limites e ver no que dá.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014

