A partir das convenções partidárias desta semana, os programas de governo devem começar a ganhar espaço e ampliar a discussão sobre as propostas apresentadas pelas candidaturas. Embora o esforço de convencimento se dirija sobretudo aos eleitores nesse período, ele continua depois das urnas, quando autoridades eleitas e servidores irão decidir quais soluções serão realmente incorporadas à rotina do governo.
Quem divulga políticas baseadas em evidências dedica mais atenção a descobrir o que funciona do que a estudar como esse conhecimento será comunicado. A segunda tarefa está dada: resumir as evidências, publicá-las, fazer eventos e encontros. Contudo, como sabemos, uma política pode estar bem fundamentada e ainda ser ignorada porque a informação chegou por uma fonte ou um formato pouco favorável. Será que as pesquisas sobre comunicação não deveriam também orientar essa parte do trabalho?
Por exemplo, a adoção de uma recomendação para melhorar as páginas dos municípios espanhóis na Wikipédia aumentou em 65% quando a informação veio de uma instituição ideologicamente próxima dos gestores. Ao passo que, quando a fonte pertencia ao campo adversário, não houve efeito. Em termos absolutos, a adoção passou de 2,6% para 4,2%. O resultado é do estudo de Jorge García-Hombrados e outros pesquisadores, publicado neste mês.
Apesar da diferença na adoção, a ideologia quase não alterou a proporção daqueles que acessaram a informação, mas interferiu em como avaliavam a eficácia da medida apresentada. Além disso, uma vez que a instituição sem posição ideológica clara também não teve influência relevante, a neutralidade, sozinha, não basta para contornar o filtro ideológico. Sobretudo em ambientes polarizados, a identidade da fonte tende a ter mais poder de influência ao servir de atalho para a relação de confiança, independentemente do conteúdo.
Claro que o mensageiro é apenas parte da comunicação. Um experimento com gestores brasileiros mostra que a abertura a evidências depende também da possibilidade de avaliar sua qualidade e usá-la. No estudo de Jonas Hjort e outros economistas, 99% dos gestores abriram mão de parte de uma recompensa para conhecer avaliações de programas de primeira infância e pagaram mais por pesquisas com amostras maiores. E 72% alteraram suas crenças depois de receber os resultados para implementar as intervenções.
Participar de uma sessão informativa que apresentava pesquisas sobre cartas de lembrete aos contribuintes elevou sua adoção de 32% para 42% e alterou a avaliação dos servidores da área tributária. A divulgação precisa, assim, tornar a qualidade da pesquisa compreensível e permitir que o gabinete e os servidores saibam como agir.
A influência ideológica, porém, não surge apenas pela menção a um governo ou partido. Os pesquisadores testaram associar uma intervenção aos governos Lula e Dilma, o que por sua vez não mudou significativamente a reação dos gestores. O tema era pouco polarizado e a evidência continuava a chegar pelos mesmos intermediários. A força da influência da fonte varia conforme o assunto, o ambiente político e a credibilidade construída anteriormente.
Então, think tanks, centros de pesquisa e até gestores públicos, além de perguntar quais políticas funcionam, devem incorporar ao planejamento o que já se sabe sobre mensageiros, formatos e orientações práticas e, quando possível, testar suas estratégias.
Assim, a busca por políticas baseadas em evidências inclui descobrir o que funciona e aprender a comunicar os resultados sem alterá-los para convencer a cada público. Quando a comunicação também se orienta por pesquisas, aumenta a chance de que evidências sobre uma boa política deixem de ser apenas conhecidas e passem a ser usadas para melhorar a vida das pessoas.
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