A perda da voz, no Afeganistão, não vem de doença. Vem de decreto oficial: lá, cantar ou responder alguém na rua virou crime para uma mulher. E, não, não é imaginação. É rotina para mais de 20 milhões de mulheres proibidas de existir em público com o corpo inteiro, incluindo a voz.
Desde que o Talibã retomou o poder, em 2021, mais de 230 decretos cortaram pedaços dessa vida, um de cada vez. Primeiro, a escola depois dos 12 anos, depois, o emprego, depois, o acesso à rua sozinha, o rosto descoberto e agora, a voz. A ONU (Organização das Nações Unidas) chama isso de apartheid de gênero.
É fácil sentir o estômago revirar e seguir rolando o feed, aliviado por morar longe demais para temer isso, mas essa distância é ilusão. Enquanto o mundo se choca com o Talibã, o Brasil bateu, neste ano, seu maior recorde.
No primeiro trimestre de 2026, 399 mulheres morreram por feminicídio no país, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o maior número desde que a série histórica começou, em 2015. Uma mulher morta a cada cinco horas. Alta de 7,5% sobre o ano anterior, num país sem Talibã, sem lei de vício e virtude, sem polícia religiosa nas esquinas.
A diferença entre lá e aqui não está na dor, está na assinatura. No Afeganistão, o controle sobre o corpo da mulher virou artigo de lei, público e orgulhoso de si. Aqui, o mesmo controle mora dentro de casa, sem testemunha, disfarçado de amor, ciúme, cuidado.
Uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão com o Instituto Locomotiva, divulgada na semana passada, mostra que 54% das brasileiras que já se relacionaram com homens sofreram algum tipo de violência de parceiro ou ex-parceiro. Só 11% dos homens admitem ter cometido essa violência. A conta não fecha: metade das mulheres carrega a violência, quase ninguém carrega a culpa.
No livro “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt escreveu que o mal mais perigoso do século 20 não tinha rosto de monstro, mas de funcionário mediano, cumprindo ordens, e chamou isso de banalidade do mal. Quem mata uma mulher aqui raramente é um estranho armado de ideologia, mas é o marido, o namorado, o pai, alguém banal, chamado de homem de família até a última hora.
Não custa nada julgar o Talibã, porque dói de longe, mas com a tela protegendo quem julga. Olhar para dentro custa mais caro e exige perguntar por que o país produz uma morta a cada cinco horas sem indignação parecida com a de um vídeo sobre mulheres afegãs. Indignação seletiva também é uma forma de violência.
Em 2015, a maravilhosa Elza Soares gravou “Maria da Vila Matilde”, composta por Douglas Germano em homenagem à própria mãe, espancada pelo marido numa época sem lei para protegê-la. A canção virou hino porque nunca deixou de ser atual. A Maria da música ainda tem colegas, vizinhas, parentes, em algum lugar do Brasil, agora mesmo. Vale medir a distância real entre o Afeganistão e a casa ao lado, porque ela pode ser bem menor do que temos coragem de admitir.
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