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O Brasil deveria adotar a Lei de Reciprocidade contra as tarifas de Trump? NÃO – 24/07/2026 – Opinião

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O Brasil deve reagir às tarifas dos Estados Unidos. Mas reação não se confunde com retaliação. O objetivo deve ser remover barreiras, não multiplicá-las. Por isso, o caminho mais eficaz é negociar.

A Lei de Reciprocidade Econômica é um instrumento legítimo e pode parecer uma resposta firme e altiva do Brasil. Acioná-la agora, porém, seria um tiro no pé, com elevado risco de provocar uma escalada política e comercial na qual o país tem muito a perder.

Elevar impostos sobre a importação de bens norte-americanos encareceria a vida dos brasileiros e reduziria a competitividade nacional. O país compra dos EUA medicamentos, fertilizantes, defensivos agrícolas, bens de capital, partes de aeronaves, diesel e gasolina. São insumos para a indústria e a agropecuária, além de bens essenciais para os cidadãos.

A medida também teria pouca eficácia. O Brasil representa apenas 2,5% das exportações totais de bens dos Estados Unidos. É o clássico caso em que os efeitos colaterais superam os resultados pretendidos.

Propostas de restrições a investimentos ou à propriedade intelectual seriam ainda mais temerárias. Colocariam em risco a segurança jurídica e a reputação do Brasil como destino de investimentos. Seria jogar contra o ambiente de negócios do país.

Há quem recorra, como precedente, ao contencioso do algodão. Em 2010, a Organização Mundial do Comércio (OMC) autorizou o Brasil a retaliar os EUA. As medidas não chegaram a ser aplicadas, mas ajudaram a habilidosa diplomacia brasileira a alcançar um acordo.

O mundo mudou. O roteiro que funcionou sob o auspício das regras multilaterais pode hoje produzir o efeito oposto. Em um ambiente mais unilateral, a reciprocidade dificilmente provocará recuo. Ao contrário, tende a desencadear uma resposta ainda mais dura.

Os precedentes recentes são mais úteis. No ano passado, a reação da China às tarifas norte-americanas desencadeou uma espiral de retaliações, que culminou com sobretaxas de 145% sobre produtos chineses.

No Canadá, a província de Ontário anunciou sobretaxa de 25% sobre a sua eletricidade exportada aos EUA. Washington ameaçou dobrar para 50% as tarifas sobre o aço e o alumínio canadenses. Ontário voltou atrás no dia seguinte.

Nesta semana, o governo dos EUA anunciou sobretaxas de 50% sobre uma ampla gama de importações canadenses, sob o argumento de que o Canadá adotava práticas retaliatórias. Um sinal nada encorajador.

Esses exemplos mostram como retaliações podem alimentar guerras comerciais. Como sabiamente ponderou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB): “No olho por olho, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos”.

A Amcham Brasil —maior câmara americana de comércio do mundo, com cerca de 3.500 empresas— tem se posicionado contra tarifas sobre as exportações brasileiras e a favor da negociação de uma agenda bilateral ampla.

Diversificar mercados é necessário. Mas os produtos industriais e tecnológicos vendidos aos EUA não encontram outros destinos com facilidade. Medidas emergenciais de apoio são louváveis, mas não substituem o acesso competitivo ao maior mercado consumidor do mundo.

O caminho é redobrar os esforços de negociação. Nove em cada dez empresas ouvidas pela Amcham defendem essa alternativa e rejeitam a reciprocidade. Elas sabem que uma escalada atingiria —ainda mais— suas operações e os cerca de 3,2 milhões de empregos sustentados pelas exportações brasileiras aos EUA.

Negociar não é aceitar imposições nem ceder em princípios. É construir soluções concretas, com criatividade e flexibilidade. É identificar convergências que permitam reduzir as tarifas e avançar em uma agenda de ganhos mútuos. É um caminho intrincado, mas mais eficaz e alinhado aos interesses brasileiros.

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