A alta internacional do diesel passou a superar, com folga, a do petróleo. Em um mês, o contrato contínuo do ICE Low Sulphur Gasoil, principal referência europeia para o combustível, avançou cerca de 33%.
O Brent subiu 10,3% no mesmo intervalo.
O descolamento mostra que a pressão não está somente na matéria-prima, mas também nas refinarias, nos estoques e na disponibilidade de cargas.
Na Costa do Golfo dos Estados Unidos, referência importante para o mercado atlântico e para as importações brasileiras, o diesel de ultrabaixo teor de enxofre passou de US$ 3,31 por galão em 7 de julho para US$ 3,78 no dia 13, alta de 14,3%.
O movimento se acelerou depois que a Rússia, segunda maior exportadora mundial de diesel, proibiu temporariamente suas vendas externas. A decisão busca preservar o abastecimento interno após ataques ucranianos danificarem refinarias e aprofundarem a escassez de combustíveis no país.
A proibição está prevista para terminar em 31 de julho e preserva algumas entregas definidas em acordos governamentais. O prazo legal, porém, não deve ser confundido com o tempo necessário para recuperar a capacidade de produção.
A refinaria de Moscou, atingida duas vezes em junho, deverá permanecer paralisada por pelo menos seis meses. Estimativas do mercado indicam ainda que quase 40% da capacidade russa de refino poderá continuar indisponível por pelo menos dois meses, mesmo sem novos ataques.
A restrição pode, portanto, terminar formalmente e continuar influenciando os preços.
Antes da proibição, as exportações marítimas russas de diesel e gasóleo já haviam caído 39% em junho ante maio. Entre 1º e 10 de julho, os carregamentos recuaram para uma média de 234 mil barris diários, diante de 400 mil em junho e de aproximadamente 817 mil barris por dia em 2025.
O Brasil tem razões para acompanhar atentamente essa retração.
Em junho, brasileiros e turcos foram os principais compradores do diesel russo e absorveram juntos pelo menos metade das cargas disponíveis. Agora, precisam buscar mais combustível nos Estados Unidos, no Oriente Médio e na Ásia, concorrendo com compradores europeus em um mercado já pressionado.
A substituição é possível, mas tende a ser mais cara.
O Brasil perde uma fonte que vinha oferecendo preços competitivos, enfrenta prêmios maiores nos mercados internacionais e pode pagar mais por frete, seguro e prazo de entrega.
A alta externa não chega automaticamente às bombas.
O repasse depende do câmbio, dos estoques, da política comercial da Petrobras e da atuação do governo. A subvenção de R$ 1,12 por litro comercializado, prevista entre junho e dezembro, amortece parte da pressão, mas transfere o custo para o orçamento público.
Se a valorização internacional persistir, seus efeitos avançarão pelo transporte rodoviário, pelo agronegócio, pela mineração, pela construção e pela indústria.
Embora tenha peso direto limitado no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o diesel pressiona a inflação por meio do frete e dos custos de produção e distribuição.
O governo terá de administrar um dilema conhecido.
Manter a subvenção reduz o impacto imediato nas bombas, mas amplia a despesa pública. Permitir o repasse pressiona os preços. Sustentar valores muito abaixo do custo internacional, por sua vez, diminui o interesse dos importadores e pode comprometer o abastecimento.
A resposta mais segura combina diversificação de fornecedores, estoques adequados e uma política de preços previsível.
Medidas emergenciais podem amortecer o choque, mas não recuperam a capacidade russa de refino nem ampliam a oferta mundial de diesel.
A crise também recoloca em pauta o aumento gradual da proporção de biodiesel no diesel vendido nos postos. O Brasil já adota o B15, com 15% de biodiesel, e conduz testes para avaliar misturas superiores, que podem chegar ao B25.
Uma elevação tecnicamente segura ajudaria a reduzir a necessidade de diesel fóssil importado e a exposição do país a choques externos, mas não pode ser tratada como solução improvisada: exige compatibilidade com motores, controle de qualidade, oferta suficiente e avaliação dos efeitos sobre os custos agrícolas.
A proibição de Moscou é temporária; reduzir a vulnerabilidade brasileira exige planejamento de longo prazo.

