Com os polegares apontados para baixo, um homem posa para uma foto em frente ao espelho d’água do Lincoln Memorial, em Washington. Ao redor, pessoas observam a água esverdeada e comentam a sujeira acumulada naquele que é um dos principais cartões-postais da capital americana. “O pato está nadando na sujeira. Isso é ruim”, diz uma mulher ao passar pelo local.
A cena resume as controvérsias em torno das reformas promovidas por Donald Trump na capital americana.
Como parte das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o presidente lançou uma série de intervenções em Washington que incluem a reforma do espelho d’água do Lincoln Memorial, a construção de um novo salão de festas na Casa Branca e um arco monumental inspirado no Arco do Triunfo de Paris. Das três, apenas a primeira já foi concluída —e justamente ela se tornou alvo de críticas poucos dias após a inauguração.
O governo investiu cerca de US$ 14 milhões (cerca de R$ 75 milhões) na reforma acelerada do espelho d’água, sem licitação. A principal mudança foi um revestimento azul no fundo do lago para intensificar o reflexo dos monumentos ao redor.
Trump comemorou a obra nas redes sociais e publicou imagens feitas por IA em que aparece celebrando com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
Dias depois da entrega, porém, o espelho já não parecia mais atraente para um mergulho: o revestimento começou a descolar, a proliferação de algas voltou a deixar a água verde e um cheiro incômodo permanecia no local.
O governo anunciou novos reparos, e Trump atribuiu os problemas a atos de vandalismo e o ex-atleta olímpico, David Hearn, foi indiciado por suspeita de destruição do patrimônio. Ele nega ter causado danos.
Entre os visitantes, as reações se dividem. O professor Will Gross, 44, que visitava Washington ao lado do amigo Lory Connell, 49, ambos da Filadélfia, considera que a reforma representa desperdício de dinheiro público.
“Primeiro pagamos por esse problema. Agora vamos gastar mais dinheiro para consertá-lo. É um absurdo”, afirmou. “Num momento em que há pessoas tentando descobrir como vão alimentar seus filhos, estamos gastando dinheiro dos contribuintes para mudar a cor dessa água.”
Outro visitante, Thomas Matthew, 35, questiona tanto a necessidade da intervenção quanto sua execução. “Estou frustrado com os custos. Estou frustrado com o que parece ser favorecimento político, em que o presidente parece beneficiar amigos ou pessoas que lhe fizeram favores. Como contribuinte, considero isso revoltante”, afirmou.
Para ele, a obra nunca foi necessária: “Nem acho que havia um problema que precisasse ser resolvido. Era um projeto vaidoso desde o início. Somando isso ao que parece ser corrupção, realmente não gosto dessa iniciativa.”
Matthew se refere ao fato de que a reforma foi realizada por uma empresa ligada a um doador de Trump —e vizinho em Mar-a-Lago— sem licitação. Ao jornal The New York Times, a Casa Branca afirmou que o presidente não esteve envolvido na escolha da empresa.
Nem todos, porém, compartilham dessa avaliação. Washington elegeu Kamala Harris em 2024 com ampla vantagem e tem população majoritariamente democrata, mas há também apoiadores de passagem fotografando as obras de Trump.
A aposentada Ruth, 62, que preferiu não informar o sobrenome, diz estar satisfeita com o resultado. “Estou muito feliz que tenham feito isso. Acho que o lugar está ficando bonito novamente e tem potencial para ficar ainda mais bonito, desde que seja bem conservado”, disse.
Para ela, “alguma ação é melhor do que nenhuma” e, caso surjam novos problemas, “o presidente Trump vai resolvê-los”. “As pessoas criticariam Trump até se ele encontrasse a cura para o câncer.”
As controvérsias do espelho d’água antecedem discussões semelhantes sobre as outras duas obras anunciadas por Trump. Uma delas é o arco monumental às margens do rio Potomac, entre o Lincoln Memorial e o Cemitério Nacional de Arlington.
Inspirado no Arco do Triunfo de Paris, terá cerca de 75 metros de altura. A Casa Branca não divulgou orçamento oficial, mas a imprensa americana estima custo próximo de US$ 100 milhões. Trump chamou o projeto de “o maior e mais belo Arco do Triunfo do mundo”, uma homenagem aos 250 anos da Independência americana.
Mesmo sem ter saído do papel, a obra já enfrenta resistência: manifestantes protestaram no local previsto e organizações de preservação apresentaram objeções durante a análise da Comissão de Belas Artes dos Estados Unidos.
A outra é o novo salão de festas da Casa Branca. Com quase 8.400 metros quadrados e capacidade para mil convidados, o edifício foi apresentado pelo governo como forma de aumentar a segurança em grandes eventos oficiais, reduzindo a necessidade de estruturas temporárias nos jardins da residência.
O presidente costuma mostrar a obra a visitantes que recebe no Salão Oval, destacando o mármore e a estrutura de segurança em construção. A necessidade do espaço foi reforçada após o ataque durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca —embora o evento não ocorra na Casa Branca— e após uma ameaça ligada a um evento de UFC promovido por Trump.
Para abrir espaço ao novo prédio, a Ala Leste foi demolida. O custo também mudou ao longo do projeto: inicialmente estimado em US$ 200 milhões, cerca de R$ 1,06 bilhões, passou a cerca de US$ 400 milhões (R$ 2,07 bi), segundo Trump, que prometeu financiamento próprio e de doadores privados.
Documentos obtidos pelo Washington Post, porém, apontam que o valor pode chegar a US$ 600 milhões (R$ 3,11 bi), dos quais cerca de metade seria bancada por órgãos públicos, como o Serviço Secreto, o Escritório Militar da Casa Branca e a Residência Executiva.
A obra também é alvo de disputa judicial: uma organização de preservação histórica acusa o governo de não cumprir exigências legais antes da demolição da Ala Leste. Um tribunal de apelação autorizou a continuidade da construção enquanto analisa o caso, mas o julgamento definitivo ainda não foi concluído.
Para o jornalista aposentado Rick Elia, 70, da Pensilvânia, que hoje escreve um blog político, o debate sobre as intervenções reflete uma preocupação presente em boa parte do país: o custo de vida. “Há pessoas tentando descobrir como vão pagar moradia, alimentação, saúde e as contas da casa, enquanto nós estamos discutindo construir salões de baile e deixar essa água azul”, afirmou.

