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Contra a parede: Reino Unido proíbe redes sociais para menores de 16 anos e divide país – 25/06/2026 – Opinião

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Ambientada em uma sala de escola de Preston, pequena cidade no noroeste da Inglaterra, a cena parece saída de uma hipotética versão infanto-juvenil do seriado “The Office” (a edição britânica, naturalmente).

A repórter da BBC News caminha entre estudantes de 11 a 14 anos visivelmente entediados. Não bastando perder parte do recreio, os alunos estão sendo informados, ao vivo, de que não poderão mais acessar as principais redes sociais até completarem 16 anos. Dos 16 aos 18 anos, o uso será limitado, especialmente em “live streaming”, interações noturnas e no tão criticado scroll infinito.

Após dizer que passa até nove horas em telas durante os finais de semana, Isabella, uma das estudantes, é questionada de forma otimista —e relativamente ingênua— pela jornalista sobre o que fará com tanto tempo livre. “(Vou) ficar olhando para a parede”, responde com notas do mais puro sarcasmo inglês.

A declaração desconcertou a repórter, ruborizou professores e repercutiu tanto quanto o anúncio do banimento divulgado em 15 de junho pelo então primeiro-ministro, Keir Starmer, que coloca Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte ao lado de países como Austrália e Malásia, que já restringem contas de crianças e adolescentes. Com discussões avançadas em seus parlamentos, França e Noruega devem chegar ao clube parental nos próximos meses.

Como quase tudo o que acontece no Reino, digamos, Unido, a decisão dividiu a população. Boa parte dos especialistas apoia as medidas, mas considera a implementação e o controle um desafio constante que vai depender tanto do governo quanto das plataformas. Reconhecimento facial e outras formas de verificação de idade são frequentemente burlados, como já se demonstrou em sites de conteúdo pornográfico e de venda de vapes ou bebidas alcoólicas.

O anúncio reforça que o envolvimento dos pais e da sociedade é fundamental para “devolver a infância às crianças”. Para isso, o governo aposta em uma série de estímulos às atividades físicas, culturais e educativas contínuas além do ambiente escolar. Às ruas, jovens!

O aumento da violência urbana e as incompreensíveis placas espalhadas pelo país em que se proíbe jogar bola na rua a gente conserta depois —na verdade, as placas são bem legíveis, mas talvez não façam sentido para uma nação que pretende impulsionar interações ao ar livre e que ama e batiza o esporte bretão, o popular futebol.

Alguns pais se voltaram contra as medidas restritivas alegando “censura”, mas o que estavam mesmo querendo dizer era “o que eu vou fazer com uma criança sem tablet em casa?” Embora as restrições só comecem a partir do ano que vem, as férias escolares nunca se insinuaram tão assustadoramente.

Entidades ligadas aos direitos digitais, como a Open Rights Group, apontaram questões pertinentes sobre segurança e vigilância, já que os demais usuários provavelmente terão que (re)comprovar suas identidades, o que em muitas vezes envolverá dados bancários, cartões de créditos e até passaportes, gerando o temor de que milhões de informações sensíveis fiquem ainda mais expostas.

Já as principais plataformas afetadas, como TikTok, Snapchat, Google e Instagram, soltaram notas tão alinhadas quanto um carrossel de imagens.

Em incrível sintonia, alegaram que a proibição afastará as crianças de suas principais fontes de informação e as levará para lugares “mais sombrios” na internet em que a moderação e a segurança não são “confiáveis”.

Inexplicavelmente, neste primeiro anúncio do governo britânico, WhatsApp, Signal, YouTube Kids, Discord, Roblox e outras plataformas de jogos online não foram restritos, questões que deverão ser endereçadas ao futuro primeiro-ministro.

As futuras horas em frente a uma parede devem aflorar algumas reflexões para Isabella, a mais famosa aluna do Reino Unido da última semana. Suas redes sociais ficarão restritas por um bom tempo, ela não pode jogar bola na rua, mas, aos 16 anos, pelo menos, poderá sair com seus pais, tomar legalmente uma cerveja, uma cidra ou uma taça de vinho com a refeição e ficar vendo e ouvindo em scroll infinito que os pubs são a verdadeira e mais antiga rede social que já existiu.

Cheers!

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