Quando o príncipe Harry decidiu deixar a família real britânica em 2020, a impressão era de que ele havia escolhido uma nova vida. Seis anos depois, porém, fica cada vez mais claro que sua principal batalha nunca foi contra a monarquia, mas pela manutenção de seu lugar dentro dela.
As notícias divulgadas neste início de mês sobre a viagem de Harry, Meghan Markle, Archie e Lilibet ao Reino Unido deixaram isso evidente. Segundo relatos da imprensa britânica e americana, o rei Charles III teria oferecido uma residência real para acomodar o filho e a família durante a visita, que coincidiria com eventos relacionados aos Jogos Invictus. O gesto foi interpretado como uma tentativa de reconciliação. Mas, como quase tudo envolvendo os Sussex, há também uma importante dimensão simbólica.
Os observadores mais cínicos da família real não demoraram a sugerir que Harry encontrou a única estratégia capaz de sensibilizar o pai: os netos. Charles teve contato extremamente limitado com Archie e praticamente não participou da vida de Lilibet. Em um momento de fragilidade pessoal e preocupação com o legado, a oportunidade de reunir a família possui um peso emocional difícil de ignorar.
Harry sabe disso.
E também sabe o valor que teria uma fotografia oficial — ou mesmo informal — do rei ao lado dos netos, com Harry e Meghan novamente inseridos, ainda que por algumas horas, no círculo familiar de Windsor. Depois de anos sendo questionado sobre sua relevância pública após deixar a realeza e de assistir ao esvaziamento institucional do príncipe Andrew, Harry parece determinado a reafirmar aquilo que repete desde sua saída: ele pode ter abandonado as funções reais, mas jamais deixará de ser parte da família real.
É, aliás, uma estratégia bastante inteligente. Cargos podem ser retirados. Patrocínios podem acabar. A relevância pública pode diminuir. O vínculo familiar, porém, não pode ser revogado por decreto.
Ao mesmo tempo em que busca uma aproximação com o pai, Harry continua deixando escapar críticas ao irmão. Relatos recentes sugerem que ele não acredita que William será um bom rei. A ironia é evidente. Harry parece reproduzir, talvez conscientemente, talvez não, uma das estratégias mais famosas de sua mãe.
Nos anos 1990, Diana afirmou que Charles não era a pessoa adequada para ocupar o trono e apresentou William como a esperança de uma monarquia mais moderna e próxima do público. Harry faz o movimento inverso: coloca em dúvida a capacidade do irmão, enquanto reforça sua própria posição como observador externo e crítico da instituição.
A comparação talvez seja inevitável porque Harry, como Diana, compreendeu que a opinião pública é também um campo de batalha familiar. A diferença é que Diana queria fortalecer o futuro rei. Harry parece dedicado a enfraquecê-lo. Por isso, talvez seja incorreto dizer que Harry deseja retornar à família real. Ele sabe que não voltará a exercer funções institucionais e provavelmente nem deseja isso. O que ele busca é algo mais complexo: provar que nunca deixou de pertencer à família que escolheu abandonar.
Charles, ao que tudo indica, ainda vê Harry como um filho. William parece enxergá-lo como um problema permanente.
E talvez essa seja, afinal, a única função que Harry encontrou para si mesmo dentro da monarquia contemporânea: a de permanecer, para o irmão que será rei, uma dor de cabeça impossível de ignorar.

