Ver alguém que você ama sofrer e se sentir impotente para minimizar a dor dela é uma das experiências mais angustiantes da vida. Quando somos vistos como quem potencializa o desespero do outro, justo quando tentamos confortá-lo, cria-se um duplo abismo emocional
De um lado, sem conseguir processar o desamparo insuportável que vive, sua mãe projeta em você um terror que não tem lugar para ir. Ela te ataca, desconfia, hostiliza. Do outro, você, subitamente sem chão e sem recursos para tirá-la dessa espiral de paranoia. Você, também numa espiral, que é a vertigem de quem não só não consegue ser colo, como também se confronta com a própria angústia de perder o colo primevo. Estamos todos num não lugar: um vazio de significado entrelaçado a um emaranhado de emoções contraditórias e ambivalentes.
Em seus delírios, ela pede para voltar para casa. No seu amor, você tenta explicar que aquela é a casa dela. Ela se sente traída, desamparada. Você também. Você, que tem feito de tudo para estar perto, para distrair, para explicar. Mas não há palavra que nomeie, que acalme, que explique que você é amor e não ameaça. Ela chama pela mãe, pelo pai. Você diz que está aqui. Ninguém se encontra. Ainda que no mesmo lugar, perdemos todos a casa como símbolo de contenção. Perdemos o outro e perdemo-nos de nós mesmos. Perdemos a paciência, a esperança, as forças… E nos culpamos por isso.
Talvez porque a busca pela nossa própria contenção emocional seja um deslocamento ante a impossibilidade de conter o sofrimento alheio. Aproxima-se outra morte: a do ideal de onipotência. A da mãe, que teria sempre um conforto para tudo; e a nossa, na esperança de que o amor salvaria tudo, retribuindo o cuidado que ela nos deu, ou reparando o que faltou numa mãe dura e difícil.
Mas talvez não haja tempo de reparação. Talvez os últimos momentos sejam trocas de agressões, e não o resgate de um amor possível. Nunca mais a chance de reencontro. E todo dia o eco das brigas e críticas que te feriram na infância e voltam a te ferir agora.
Recentemente, enfrento também essa realidade. Minha avó, a grande matriarca da família, a mulher que até os 98 andava todo dia no Ibirapuera, fazia Lian Gong, conversava sobre detalhes do cenário político internacional com a mesma perspicácia com que criticava detalhes da minha vida: “você é muito expansiva, ocupa muito espaço, por isso seu irmão é tímido, tadinho” ou “essa coisa de falar de amor… Você fala demais sobre sentimentos, isso afasta os homens”.
Ela era a senhora viva. E cruel. E eu sempre me importei demais, quis discutir demais, me desculpar demais… E hoje me vejo tentando falar demais para distrair, entreter, explicar. Tendo ocupar a angústia com provas de que estou levando a força das Tilkians para o mundo. Falando de amor. Fazendo amor. Tocando as pessoas. Mas ela, mais uma vez, me escapa. Me ataca. Paradoxalmente, sem entender muito bem a realidade, ela entende direitinho onde me atingir.
Há algo cruel em ver a demência avançar em alguém próximo: a lucidez dos delírios. Ainda que você saiba que é delírio, a lança afiada que fere exatamente seus calos, tão conhecidos por ela, é cruelmente real. Será que nunca nos faremos bem? Será que não conseguirei ser colo? Será que no meu desassossego reproduzo o desassossego dela, que tanto me feriu?
Não quero ser herdeira da crueldade, mas na tentativa de explicar e esclarecer tudo para acalmá-la, falho e reforço apenas sua verdade psíquica: roubaram-lhe o apartamento, as coisas, a família. Sou parte dos impostores que fingem ser familiares. Me torno a neta que não é a neta.
E esse “não ser” me dói menos pelo estranhamento de hoje do que por ecoar uma inadequação de uma vida inteira. O delírio só batizou uma sensação antiga: a de ser, para ela, sempre a versão errada.
Conviver com a ambivalência dos afetos é sempre difícil; no extremo, torna-se quase impossível sustentar amor e ódio pela mesma pessoa. Isso acontece com o doente e também com a gente. Diante do que não se pode suportar, cindimos. Cada um a seu modo.
Ela tem certeza de que sou uma farsante. De que aquele não é meu pai. Ele, sempre o mais amado, é hoje o mais atacado.
O duplo é, paradoxalmente, um gesto de amor: o ódio precisa de um destino que não destrua quem ela ama.
Ao transformar a mim e a ele em farsantes, ela preserva o filho e a neta reais.
Entendo tudo isso, mas confesso que também cindo. Para continuar ali, na beira da cama, separo duas mulheres: a matriarca que admirei e com quem sonhei me reaproximar na vida adulta; e esta que me ataca e cristaliza as críticas. Cindidas dos dois lados da cama, transbordamos a dor em palavras: ela nos delírios e na certeza da perseguição. Eu na repetição da neta que mostrava “avó vem ver meu desenho” e agora diz “avó vem ver minha entrevista na TV, vem ver a mensagem de amor que recebi dele”. Não está funcionando. Ela não melhora. Eu também não.
Neste domingo, mudei. Amorosamente, colamos os cacos de nós mesmas, juntas. Sem dizer nada, interrompemos a cisão. Passei semanas buscando o que fazer e o que falar para cuidar, confortar, salvar. De repente, simplesmente me deitei em seu ombro. Abracei e fiz cafuné na menina de 99 anos. Ela, com a outra mão, fez carinho no meu braço. Passamos uma hora conectadas no gesto, na contenção que vem do toque, do holding, do acolhimento que é físico.
Eu, a psicanalista e pesquisadora do amor, que traduz os afetos em palavras aqui na Folha e no divã, me permiti regredir com ela. Nós, duas meninas com saudade de casa, com medo, com amor. Presentes, sentindo que há alguém ali. Duas mulheres acolhendo a própria impotência, impaciência e exaustão. Pedindo e dando colo. Quebrando, sem ferir uma à outra com nossos cacos.
Para lidar com sua angústia e com a dela, não tente eliminá-la. Peça ajuda, desabe, não dê conta, não se culpe. Simplesmente esteja lá. Confortando na presença não na palavra. No gesto, no cafuné, na volta para o corpo que é também caminho de volta para casa para vocês duas.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.

