Estamos em pleno fervor de Copa do Mundo e, tirando a nossa seleção, que busca ainda encontrar seu melhor futebol em campo, há passagens de nossa história que não podemos deixar de louvar.
Falo de Luiz Gama e Machado de Assis, dois grandes nomes ligados por uma coincidência histórica — ambos nasceram no dia 21 de junho. Um em 1831, na cidade de Salvador, Bahia, e outro em 1839, no morro do Livramento, no Rio de Janeiro —portanto, há 195 e 187 anos, respectivamente.
Luiz Gama, embora fosse também poeta, tornou-se referência do direito abolicionista do Brasil. Atuou de forma decisiva na defesa e libertação de vítimas do tráfego marítimo africano, sendo um propagador ferrenho das causas da abolição e república.
Por sua vez, Machado de Assis, nosso mais expressivo romancista, se notabilizou por ridicularizar a sociedade conservadora da época com frases irônicas e psicológicas que expunham o ridículo do Império escravocrata.
Sem dúvida, são inegáveis homens negros que deixaram importantes legados para o nosso país. De origens humildes, ambos com traços da escravidão a correr nas veias, tanto Gama quanto Machado —não há indício de que tenham tido uma relação em vida— contribuíram de maneira inequívoca para a grandeza da nação brasileira, um no campo do direito, o outro no da literatura.
Duas biografias recentemente publicadas abordam a herança africana dessas duas personagens e merecem destaque. A primeira é “As Origens Perdidas de Luiz Gama”, pela editora Hedra, de Bruno Rodrigues de Lima, que traz dados inéditos sobre os primeiros dez anos de vida do jurista baiano. A obra revela fatos até então desconhecidos sobre a mãe, Luísa Mahin, sua atuação na revolta da Sabinada e a prisão em Salvador, além de revelar a identidade do pai, o “fidalgo-canalha” Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama, como assinala o biógrafo.
Traz ainda pormenorizada descrição do período que culmina com a venda de Gama pelo próprio pai, como escravizado, em 1840.
A outra obra é “Machado: O Filho do Inverno”, pela Ação Editora, que apresenta um Machado de Assis bastante original para os leitores de hoje —reconta explicitamente a origem de sua negritude e apresenta as ramificações de ascendência que incluem dois padres em sua árvore genealógica.
Gama e Machado provavelmente poderiam até gostar de futebol. Nas petições do jurista, muitas divulgadas na imprensa, a aproximação com a linguagem popular, os dilemas do povo e seu vínculo como negro e pobre nos induz a pensar dessa forma.
No caso do escritor carioca, a grande referência é sua descrição da cidade, o cotidiano da vida pública, os costumes da gente simples, que transitava nas ruas de uma corte já em plena decadência.
Gostando ou não de futebol, tanto o poeta de “Primeiras Trovas Burlescas de Getulino” quanto o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, se vivos estivessem, encarariam com apreensão os feitos em campo dos nossos ilustres jogadores e, provavelmente, como muitos de nós, torceriam pela seleção canarinho com o coração nas mãos.
Nota de pesar. Morreu, na última segunda-feira (22), aos 102 anos, dona Maria Gregória Ventura, tia Tita, matriarca do Quilombo Morro Santo Antônio, da cidade de Itabira, Minas Gerais. É a segunda liderança quilombola que a comunidade perde em duas semanas, a outra foi dona Rosinha, ativista e escritora, morta em 4 de junho, como escrevi nesta coluna. Nossos sentimentos à família.
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