InícioOpiniãoUm misantropo assusta muita gente - 24/06/2026 - Marcelo Rubens Paiva

Um misantropo assusta muita gente – 24/06/2026 – Marcelo Rubens Paiva

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“Misantropi4” foi o texto do alerta que milhões de brasileiros receberam pelo celular depois do jogo pouco convincente entre Brasil e Haiti, na madrugada de sábado. O meu vibrou às 1h22. Foram três rugidos de um ser digital expelindo seu ódio social.

O que se sabe é que o alerta foi ação de um jovem lobo solitário, um hacker, que, usando logins e senhas de oficiais de bombeiros do Pará, invadiu o sistema da Defesa Civil que informa a previsão de tempestades e deslizamentos.

Como os vilões de “Batman” e os inimigos de personagens da Marvel, ele é macropolítico e tem poderes para alcançar o inalcançável por meio de uma tecnologia que poucos dominam.

Misantropia vem do grego “misos” (ódio) e “anthropos” (ser humano). É uma aversão, desconfiança e repulsa generalizada pela humanidade e comportamento humano. É uma visão de mundo mais pessimista que a de um niilista —se é que isso é possível. O misantropo não busca o sentido da existência nem o objetivo da vida, porque não busca nada. Tampouco quer mudar o mundo, como faria um anarquista.

O niilista olha pela varanda e conclui que nada faz sentido. O anarquista acredita que não é necessário um poder centralizador, e que as pessoas podem, por cooperação espontânea, gerir o próprio bairro e a sociedade. Já o misantropo despreza as pessoas, os anarquistas, os niilistas, a cooperação, a varanda, o bairro e o Estado.

O hacker atacou a IDAP, a Interface de Divulgação de Alertas Públicos, operada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e expôs a fragilidade do sistema: cerca de 600 usuários, vinculados a 180 instituições cadastradas, teriam condições de emitir alertas.

Mas o que ele queria?

Pelo “timing”, protestar contra a convocação da seleção? Contra a corrupção nas entidades do futebol? Contra o preço dos ingressos?

Queria Endrick no time titular? Foi um protesto contra o tratamento dado à seleção iraniana, cujos jogadores enfrentam dificuldades para entrar nos Estados Unidos, assim como sua torcida, vetada?

Ou seria uma manifestação de repúdio ao envolvimento do líder governista no Senado em um dos maiores escândalos financeiros do país, com o Supremo e tudo o mais, descoberto dois dias antes do ataque?

Ou um repúdio mais banal: ao preço da batata inglesa, à gritaria dos narradores de futebol ou ao delay entre transmissões?

O misantropo não se encaixa no espaço nem no tempo. Como em “O Misantropo”, obra-prima de Molière, que retrata com ironia um ambiente de profunda descrença. A peça foi encenada pela primeira vez em 1666, durante o reinado de Luís 14.

Uma corte rica, entediada e esbanjadora se fantasia para eventos sociais com perucas, pó de arroz e pintas falsas, vivendo uma hipocrisia coletiva. Uma sociedade que atribuía poderes divinos a um rei absolutista que, para sustentar aquele teatro comportamental, se isolou com a corte num palácio a quilômetros do povo: Versalhes.

Barbara Heliodora, tradutora, escreveu que toda a obra de Molière é rica em solidariedade humana e bom senso, embora o autor acreditasse que nada neste mundo estivesse fora do alcance da corrupção humana —e que expor ao ridículo seria o melhor caminho para denunciar e corrigir erros e vícios.

Em “O Misantropo”, o protagonista Alceste é criticado por levar sua integridade a extremos que prejudicam sua relação com o mundo. Ironicamente, torna-se um fora da lei por sua honestidade.

A peça trata do embate entre um cavalheiro do século 17, crítico da falsidade dos modos educados e elogiosos da corte, e sua paixão, Célimène, uma coquete habituada às convenções sociais e que se deixa cortejar por outros homens.

Ele se recusa a subornar o juiz ou a procurar amigos influentes para interferirem em seu favor. Prefere perder a causa a contribuir para a corrupção da Justiça.

“Eu não posso admitir conduta tão leniente, que a moda de hoje em dia obriga a toda a gente; e a nada odeio tanto quanto às contorções dos que nos vêm saudar quase que em convulsões, produtores afáveis de futilidades, que, pressurosos, jorram mil frivolidades e se batem na busca do elogio.”

“Ao contrário, é preciso punir, sem piedade, o horrível comércio do aspecto da amizade. Que os homens sejam homens e que, ao se encontrar, mostrem seus corações na hora de falar; falem com quem falar, e que seus sentimentos não se escondam jamais em falsos cumprimentos”, diz Alceste.

Alceste seria um pária na praça dos Três Poderes. Uma abominação no noticiário político atual. É bom lembrar que teremos eleições daqui a alguns meses. É bom lembrar que muita gente questiona o processo eleitoral.


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