Sem o costume de dirigir à noite, Elaine Dutra decidiu abrir uma exceção para contar pessoalmente à família que havia passado no tão sonhado concurso público. Nos 300 quilômetros entre Campos dos Goytacazes e Nova Iguaçu, no Rio, um motorista de 19 anos que saía de uma festa tentou ultrapassar numa curva e causou um acidente que a deixou paraplégica. Depois daquele 15 de setembro de 2003, foram quase dois anos sem ver o filho, entre internações e reabilitação. A vida só retomou propósito, ela diz, quando virou agente de educação da Lei Seca.
A legislação federal instituída para reduzir índices de acidentes e mortes no trânsito causados pela combinação de álcool e direção completou a “maioridade” na sexta-feira passada, num momento em que bafômetros capazes de identificar outras substâncias estão sendo testados e poderão ser usados assim que forem certificados pelo Inmetro. Como Elaine, especialistas ouvidos pelo GLOBO concordam que a Lei Seca salvou vidas e contribuiu nos últimos 18 anos para uma mudança de comportamento social. No entanto, precisa se consolidar como política pública e encarar desafios culturais e técnicos.
— O brasileiro nunca acha que vai acontecer com ele, mas sou exemplo. Sempre tem quem faça graça ou pense só na multa, mas hoje nós, agentes, somos bem aceitos em bares, eventos. Ouvimos, em hospitais, que o número de traumas envolvendo álcool e direção caiu muito, até 60%. É trabalho de formiguinha — diz Elaine.
Afetados pelo aumento da frota e de condutores e pela própria melhora dos equipamentos e ações de fiscalização, as multas têm alta constante desde 2008: em média, são 23 a cada hora.

