InícioOpiniãouma historieta da Guerra Fria

uma historieta da Guerra Fria

Publicado em

spot_img

No dia 20 de julho, o Departamento de Estado americano divulgou um relatório de cem páginas com o título Cuba: The Capital of 21st Century Communism. O documento, assinado pelo secretário Marco Rubio, sustenta que Havana conduz, há quase sete décadas, uma campanha ininterrupta de espionagem, infiltração e subversão contra os Estados Unidos – dos tempos da Guerra Fria clássica até o ativismo de rua contemporâneo, passando pela cooptação de quadros em universidades de elite e pela velha rede de agentes formados sob tutela soviética. Trata-se da confirmação, com fontes oficiais, de uma arquitetura de inteligência que a esquerda ocidental insiste em tratar como capítulo encerrado, quando na verdade nunca deixou de operar – apenas trocou de nome, de sigla e, ocasionalmente, de aliado principal. A Guerra Fria, ao que tudo indica, esfriou bem menos do que gostaríamos de crer.

Foi pensando nessa arquitetura que voltei a um dossiê pessoal, obviamente modesto perto do relatório americano, mas esclarecedor, e pela mesmíssima razão. Ele mostra em escala reduzida, e também com data, assinatura e carimbo, como esse tipo de operação funcionava décadas atrás em outras paragens da América Latina. No caso, o Brasil.

Em 2016, solicitei ao Arquivo dos Órgãos de Segurança da República Tcheca – a instituição que administra hoje os documentos das polícias políticas nazista e comunista que operaram no país entre 1945 e 1990 – uma busca sobre a presença da inteligência tchecoslovaca no Brasil durante a Guerra Fria. A resposta do arquivo foi burocraticamente desanimadora: eles podiam, sim, separar os documentos digitalizados pedidos; não podiam, porém, enviá-los ao Brasil. Restou-me recorrer a uma amiga que morava em Praga na época e que, em sua viagem seguinte de volta ao país, trouxe o material consigo – gravado, ainda, num CD, como convinha à arqueologia digital de um arquivo que passara décadas trancado em pastas de papel.

Os dez anos seguintes foram de luta lenta contra um obstáculo prosaico, mas intransponível para um leigo: o tcheco. E não apenas o tcheco genérico da vida cotidiana, mas o jargão fechado, quase críptico, de um aparato de inteligência comunista que cultivava a obscuridade como método de trabalho – abreviações internas, codinomes, terminologia burocrática do Ministério do Interior que nenhum dicionário comum decifra. Entre dicionários, favores de tradutores ocasionais e paciência de arquivista amador, consegui verter para o português talvez 5% do que havia naquele CD.