Redação Tribuna do Norte
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00h10

Carlos Braga
Professor de Língua Francesa da UFRN
Numa tarde do ano de 1968, Bernard Alléguède deixou aberta a porta do seu bureau na Aliança Francesa de Natal, instituição que ele então dirigia, e o bureau e o que havia nele aos cuidados de Arismar, para fazer uma visita a Luís da Câmara Cascudo no solar da avenida Junqueira Aires que esse provinciano universal animava (e ainda anima) com a força tranquila do seu espírito.
O destino geográfico de Bernard (semelhante ao dos ônibus que partiam da antiga estação rodoviária Presidente Kennedy, a um pulo do referido solar) era um endereço especial naquela avenida; seu destino secreto, imprevisível, certo “encantamento íntimo”, indício da novidade que atua dentro do sujeito extasiado, no momento preciso, com o ímpeto de uma revelação.
Saindo a pé da Aliança Francesa, na avenida Deodoro, Bernard podia escolher seu itinerário: dobrar à direita na João Pessoa, margeando o Castelo, ou, à esquerda, entrar na Coronel Cascudo, rua principalmente residencial naquele tempo, com raros comércios (a alfaiataria de Pompílio, a Livraria do Estudante, uma sorveteria de vida efêmera) e sem as sapatarias e os armarinhos que a colocariam, anos mais tarde, a serviço dos pés e das mãos dos moradores da cidade.
Não havendo testemunha do percurso de Bernard naquela tarde remota (as pessoas que ficaram na Aliança diriam apenas, talvez, que o viram sair), podemos imaginar, se o quisermos, que ele optou pela esquerda, enveredando pela Coronel Cascudo, rua cujo nome é o do pai do homem que o aguardava a pouca distância dali. Não havia pressa, nosso caminhante saíra mais de uma hora antes do combinado, tencionando partilhar com algum amigo um expresso e dois dedos de prosa no Café São Luiz. A tarde era azul, o céu limpo, quase sem nuvens, e não fazia calor. Tudo convidava, na brisa, ao ameno “conviver na praça de convites”. E para ele Bernard tinha nascido.
A conversa no café foi uma preliminar da que ele teria, logo mais, com seu Mestre querido. Walflan lhe mostrou um poema que tinha escrito na noite anterior, Veríssimo fez um trocadilho, e alguém que não consigo identificar disse a ele, traduzindo Vinícius num francês macarrônico, que “é melhor viver do que ser feliz”. O semblante de Bernard então se iluminou, seus olhos tremeluziram por trás dos óculos. Ao mesmo tempo expansivo e discreto, ele só não abraçou Vinícius porque o poeta carioca, naquela tarde, estava em trânsito no Leblon.
E foi assim, com esse rastro luminoso na face, que Bernard saiu do Café São Luiz, cruzou a avenida Rio Branco para alcançar a Ulisses Caldas, caminhou dois quarteirões por essa rua, quebrou à direita na esquina da prefeitura, pisando de leve a calçada com seus sapatos de nuvem, e se pôs a descer a avenida Junqueira Aires, feliz por estar vivo.
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