A anunciada morte do venezuelano Héctor Rusthenford Guerrero, líder do Tren de Aragua, em operação militar conjunta dos EUA e da Venezuela, pouco diz sobre a extinção definitiva desta facção criminosa.
Sugere mais a ansiedade de Donald Trump em entregar ao eleitorado republicano mais feitos no combate ao narcotráfico, ainda que parciais, antes das eleições legislativas de novembro.
A operação foi divulgada na sexta-feira (12) pelo próprio Trump e pelo governo interino de Caracas, tutelado pela Casa Branca desde a captura do ditador Nicolás Maduro por forças americanas, em 3 de janeiro.
Nas redes sociais, o americano adicionou imagens de explosões na suposta casa do narcotraficante e afirmou que o “terrorismo do Tren de Aragua não tem mais um refúgio na Venezuela”.
Evidências da morte de Niño Guerrero, como é conhecido o comandante do cartel, não foram apresentadas até o momento. Tampouco há notícias sobre o destino de seus potenciais substitutos e a desmobilização da organização criminosa, atuante em oito países das Américas. Avaliações sobre o impacto do ataque requerem, pois, cautela.
Não há dúvidas, de todo modo, sobre a relevância, para os EUA sob Trump, de atacar o narcotráfico não só na Venezuela como no restante da América Latina. Desde seu retorno à Casa Branca, em janeiro de 2025, o republicano agrega o uso da força militar a pressões econômicas e diplomáticas no hemisfério ocidental em prol desse objetivo.
A captura de Maduro, sob a alegação de envolvimento com o narcotráfico, foi a ação mais visível e controversa. A inclusão do Tren de Aragua e do colombiano Cartel de los Soles na lista americana de organizações narcoterroristas somou-se à iniciativa de construir uma coalizão com governos de direita da região para o combate às facções criminosas.
No final de maio, os EUA anunciaram a adição dos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho a esse rol. A decisão americana foi criticada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrário à política da Casa Branca de combate ao narcotráfico no hemisfério, que viu uma brecha para intervenções dos EUA no Brasil.
Causa espécie a declaração do Pentágono de que não há refúgio para o narcoterrorismo nas Américas, sugerindo que novos desdobramentos dessa estratégia de Trump devem ser esperados —pelo menos até as eleições para o Congresso dos EUA, cujos resultados podem limitar o ativismo da Casa Branca.

