Foram os avanços tecnológicos que retiraram a humanidade da miséria generalizada que predominava antes do surgimento da agricultura. Se, nos primórdios, os efeitos das inovações se faziam sentir lentamente, no ritmo dos séculos e das gerações, hoje eles se propagam com muito mais velocidade e podem ser percebidos pelos próprios indivíduos ao longo da vida.
Boa parte da população atual cresceu antes da popularização da internet e só teve contato com um celular na idade adulta. Em áreas como a inteligência artificial, avanços relevantes ocorrem na escala de meses.
Não se deve subestimar o quanto as tecnologias da informação facilitam o cotidiano. O acesso a serviços públicos e privados tornou-se muito mais simples.
Filas de banco praticamente desapareceram. Hoje é possível assinar documentos sem sair de casa e, em um futuro talvez não tão distante, votar pelo celular ou participar de outras decisões cívicas, ampliando a participação popular na democracia.
É preciso, porém, evitar que esse entusiasmo se converta em exclusão social. Alguns grupos, especialmente os idosos, não lidam com a mesma facilidade com a lógica de aparelhos e aplicativos. Não é razoável que essa dificuldade se transforme em barreira ao acesso a serviços. Mas é justamente o que vem ocorrendo.
Um exemplo é o das validações por reconhecimento facial. Existe a necessidade de garantir segurança e combater fraudes, mas essa solução não pode ser a única alternativa oferecida ao cidadão.
Embora funcione bem para rostos jovens em celulares modernos, seu desempenho piora com faces envelhecidas. Estudo nos EUA mostrou que a taxa de erros, de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos, sobe para 5% entre as com mais de 70. Em aparelhos antigos ou tablets, as falhas tornam-se ainda mais frequentes.
No caso do INSS, o problema assume contornos especialmente graves. A prova de vida, da qual depende o pagamento de benefícios, vem sendo canalizada para o reconhecimento facial. O público atendido pelo instituto é majoritariamente idoso, muitas vezes com dificuldades de locomoção ou déficits cognitivos.
Se há um órgão que precisa oferecer alternativas viáveis, é justamente a Previdência Social. E elas não podem se resumir a mandar o cidadão a uma agência.
A tecnologia continuará evoluindo, como já ocorreu na identificação de rostos de negros e de mulheres. Mas não é aceitável deixar milhões de idosos num limbo digital até que os engenheiros aperfeiçoem esses sistemas.

