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Seu Bandeira, 100 anos – Tribuna do Norte

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Redação Tribuna do Norte




00h00

É como se ele, com suas alpercatas, de repente entrasse trazendo os livros já encadernados. Descobri Seu Bandeira na biblioteca de Leonardo Bezerra. Ensinou como chegar ao Alto da Castanha, velho topônimo das Rocas profundas, como dizia Sanderson Negreiros. Ruazinha enladeirada, estreita e tortuosa, sem meios-fios. Nunca chamei de Antônio, seu primeiro nome. Um dia vi que do pequeno quintal da sua oficina, numa casinha simples, dava para avistar o mar.

Quando o filho, naquela tarde, ligou para avisar a sua morte, senti que perdia um amigo, mais do que um encadernador. Foi um mestre de ofício, treinado no manejo ágil das guilhotinas afiadas, das prensas, das caixas de tipos móveis e das impressoras manuais. Lembra o que é uma rama, Senhor Redator? É uma moldura de ferro que prendia os tipos na composição das palavras e segurava os clichês. Presos àquele quadrado, calçado com as cunhas de metal ou de madeira

Fui vê-lo, uma última vez, no velório. Sereno, meio sisudo, como não era em vida. Na primeira hospitalização, voltou a trabalhar na sua oficina. Na salinha da pequena casa, ao lado da sua velha e majestosa guilhotina alemã, acho que do tempo da guerra, com lâmina de mais de meio metro que de vez em quando ele precisava afiar. No corredor, a impressora manual, de uma só rama. Na salinha dos fundos, uma janela que se abria e de onde se avistava uma nesga de mar.

Deixei passar os sete dias que a Santa Madre Igreja precisa, por tradição, para preparar as almas que buscam o descanso eterno, e fui procurar o filho. Queria ter aqui uma presença de Seu Bandeira, além de algumas boas dezenas de livros encadernados por ele. É o que explica, Senhor Redator, aquela rama de ferro fixada na parede. E aquela palavra única – ‘Seminário’ – escrita ao contrário: sinaliza, para quem sabe, que é do tempo que encadernava para o Seminário São Pedro.

Como todas as coisas daqui, no calor do sopro humano, são livres de qualquer utilidade prática. Gosto das coisas inúteis, Senhor Redator. Daí esses bichos, essas pedras, esses quadros, um jacaré que parece ter vida. Livros velhos, papéis velhíssimos, fotografias que agonizam de tão esmaecidas. Sob o olhar do gavião talhado na pedra rústica pelas mãos de Dimas, suas asas guardadas como se descansassem do vôo, lá das pedreiras nas margens do Gargalheiras, até aqui.

Vendo as espátulas de osso polido que usava para vincar os livros, entre o dorso e a capa, disse: “Faço da canela de boi”. Dias depois, trouxe uma de presente. Perguntei se fora sedutor nas Rocas, vizinha da velha Limpa. Respondeu, com humor: “Umas coisas ainda usando, outras só alisando”. Atualizo a crônica, neste 2026, nos cem anos de Antônio José Bandeira (13.12-1926-14.07.2012), e lembro um personagem de uma Natal sem memória que vai desaparecendo…

PALCO

FORÇA – Foi uma demonstração de força e prestígio o ato público realizado por Álvaro Dias, sábado, para receber o apoio do deputado Ezequiel Ferreira que preside o PSDB aqui no Estado.

TECLA – O professor Mardone França lança o seu ‘A Tecla ‘A’’ dia 23, quinta-feira próxima, na varanda do Temis Clube, sede do América. O doutor em estatística liberta o contador de histórias.

VENCEDOR – Quem confirma a data é o editor Abimael Silva, do Sebo Vermelho: o livro que conta a história do Café Vencedor será lançado dia 23, bistrô do América, a partir das 16h.

HISTÓRIA – Em pré-venda (PIX (84) 9.8711.2324), o livro “Ecos do Autoritarismo no RN”. Com imagens reais e textos de Maria Conceição Fraga, João Maria de Souza e Juan de Almeida.
QUANDO – Além da compra antecipada, o livro será lançado dia 28 de agosto, na Biblioteca Central da UFRN. Um capítulo da história política dos perseguidos que tombaram na resistência.

LUTA – A Arquidiocese de Natal numa campanha para a restauração da sede da Rádio Rural de Natal, histórica pelo seu pioneirismo da educação pelo rádio, no tempo de Dom Eugênio Sales.

POESIA – De Lúcio Cardoso, versos do seu poema existencialista – ‘Em Tom de Branco”, diante da vida que passa: “A cor não existe. / Somos o que inventamos. / Passamos. / Mas o nada existe”.

RECEITA – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, lendo as folhas da aldeia: “Há os que chegam e enriquecem a vida pública e os que a empobrecem. O voto da paixão é cego”.

CAMARIM

HISTÓRIA -Há livros assim, simples, como se fossem apenas a memória familiar, mas que surpreendem porque são o registro de um tempo imenso de vida. É a história que corre amorosa nas páginas do livro ‘Do Seridó a Natal’, com a tão humana e tão rica história do Café Vencedor.

QUANTO – Uma bem cuidadosa pesquisa de Erivaldo Mesquita, engenheiro pós-graduado em segurança ocupacional, e Sônia Othon, professora aposentada da UFRN, nas áreas de História da Música e do Teatro. Juntos, contaram a história que não poderia adormecer na memória familiar.

RIQUEZA – Com informações e imagens, o Café Vencedor recebeu a visita de Cauby Peixoto, Terezinha Morango, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Grande Otelo, Ivon Cury, Nora Ney, Elizete Cardoso, Ademilde Fonseca, Dick Farney, Maysa Matarazzo, Luiz Gonzaga, e outros.

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