InícioOpiniãoRicos também empobrecem, comentou Samuel Pessôa - 20/07/2026 - Michael França

Ricos também empobrecem, comentou Samuel Pessôa – 20/07/2026 – Michael França

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Costumo ter ótimas conversas em almoços, jantares, bares e forrós com colunistas da Folha e de outros jornais. Um deles é Samuel Pessôa. Infelizmente, ele ainda não topou ir ao forró. Porém, costumamos compartilhar bons almoços e algumas cachacinhas mineiras de vez em quando.

Ele costuma acompanhar alguns dos meus trabalhos de perto. Já foi ao lançamento de dois livros meus e costumamos ter várias trocas construtivas.

Na semana passada, ele me mandou uma mensagem dizendo que tem uma discordância em relação à minha última coluna, intitulada “Preguiça dos ricos raramente produz pobreza?“. Disse que eu estaria subestimando a quantidade de ricos que empobrecem em função de suas escolhas.

“Conheço um monte. Ser rico torna a vida mais fácil. Mas, com o tempo, vai se empobrecendo, sim. Minha evidência casual é imensa”, argumentou ele.

A mensagem de Pessôa é interessante justamente porque captura uma confusão comum no debate sobre mobilidade social: a diferença entre conhecer casos de ricos que perderam parte do patrimônio e medir a chance de uma pessoa nascida no topo cair para a base da distribuição.

É evidente que alguns ricos empobrecem. Porém, a mobilidade social descendente no Brasil é grande o suficiente para tornar o topo realmente instável? E aqueles que caem ficam pobres? A melhor evidência disponível, e não casual, indica que não.

O estudo (Intergenerational Mobility in the Land of Inequality) de Diogo Britto, Alexandre Fonseca, Paolo Pinotti, Breno Sampaio e Lucas Warwar, estima que só 4% dos filhos de famílias no quinto mais rico da distribuição caem para o quinto mais pobre na vida adulta. Quase metade, 48,5%, permanece no topo.

Entre os filhos de famílias no quinto mais pobre, só 2,5% chegam ao quinto mais rico. Esse percentual é um terço do que o observado nos EUA (7,5%), e entre quatro e seis vezes menor do que os registrados na Itália (11,2%) e na Suécia (15,7%).

Essa segunda comparação mede a dificuldade de quem nasce embaixo chegar ao topo. Ela ajuda a enxergar a assimetria da mobilidade social brasileira: poucos sobem da base, enquanto uma parcela expressiva dos que nascem no alto permanece por lá.

A OCDE já chamou a persistência dos ricos no topo de “teto pegajoso” e dedicou um relatório à pergunta sobre o “elevador social quebrado“. O estudo mostrou que quem cai para a base tende a vir da classe média, e raramente do andar de cima.

No caso brasileiro, podemos dizer que esse elevador funciona melhor para manter os ricos e seus filhos nos andares de cima, seja por mérito, seja por herança, do que para devolver à base quem faz escolhas ruins.

Existe um ponto importante que quero reforçar aqui. Descer do topo não é a mesma coisa que ficar pobre. Uma pessoa pode sair do quinto mais rico para o quarto, pode fechar uma empresa e contar histórias melancólicas sobre a perda de uma casa com vista para o mar. Tudo isso pode ser vivido como decadência. Só que, em termos distributivos, a pobreza continua longe. Muito longe.

A confusão entre queda de status e queda para a pobreza é relativamente comum. Porém, no final, nada escapa do fato de que, em nosso país, os ricos até podem descer alguns degraus, mas poucos chegam ao porão da pobreza.

O texto é uma homenagem à música “Coração Civil”, interpretada por Milton Nascimento.


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