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Rastreabilidade é o novo passaporte verde do comércio global – 06/05/2026 – Opinião

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A transição energética não está apenas transformando as matrizes de energia; está redesenhando as fronteiras do comércio internacional. Hoje, não basta produzir, é preciso comprovar como se produz. No século 21, o valor de um bem não está mais em seu volume, mas na credibilidade de sua origem. A rastreabilidade e as taxonomias verdes se tornaram os novos critérios de pertencimento à economia global, definindo quem participa e quem fica à margem.

A China compreendeu isso cedo. Ao investir em cadeias completas de refino, certificação e tecnologia digital, tornou-se não apenas a maior produtora mas também a definidora dos padrões de sustentabilidade de minerais críticos. Enquanto isso, países exportadores de recursos naturais, como o Brasil, correm o risco de permanecer como meros fornecedores de insumos “sem pedigree verde”; produtos que, embora limpos na prática, podem ser desqualificados por não atender a critérios estrangeiros de rastreabilidade.

A União Europeia já transformou a sustentabilidade em barreira comercial. O “EU Battery Regulation” (2023) exige comprovação de origem ambientalmente responsável de lítio, níquel e cobalto. O “Critical Raw Materials Act” (2024) condiciona contratos e financiamentos à rastreabilidade total da cadeia. No hidrogênio, os “Delegated Acts” (2023) determinam que só será reconhecido como “verde” aquele produzido com energia 100% renovável e emissões inferiores a 3 kg de CO₂ por kg de H₂.

Essas exigências representam um dilema para o Brasil: sem rastreabilidade, perde-se mercado; sem autonomia regulatória, perde-se soberania. Importar parâmetros sem adaptá-los à realidade nacional seria abdicar de uma agenda própria de sustentabilidade, ancorada em nossas condições climáticas, energéticas e territoriais.

Mas há oportunidades. Com uma matriz elétrica 85% renovável (EPE, 2024), o Brasil tem potencial para oferecer ao mundo mineração e hidrogênio de baixo carbono, produtos com energia limpa desde a origem. A questão é transformar essa vantagem comparativa em vantagem competitiva, investindo em certificação digital, transparência e governança ambiental.

O desafio brasileiro não é tecnológico, mas institucional. Ainda convivemos com lacunas na rastreabilidade mineral, conflitos fundiários e fragmentação regulatória. Sem bases de dados integradas, satélites interoperáveis e certificações confiáveis, não há como provar o que já fazemos bem: produzir energia limpa e exportar recursos de baixo carbono.

A rastreabilidade, longe de ser um controle burocrático, pode se tornar catalisadora de inovação e política industrial verde. Para rastrear, é preciso dominar etapas de refino, beneficiamento e certificação, ou seja, verticalizar a produção. Isso significa gerar empregos, desenvolver tecnologia e vender não apenas commodities, mas confiança.

O futuro do comércio global não será definido por quem extrai mais, mas por quem comprova melhor. Se o Brasil unir sua matriz renovável a sistemas inteligentes de rastreabilidade e governança ambiental, poderá ocupar um lugar estratégico na nova geografia do comércio verde. O que está em jogo não é apenas exportar produtos, mas exportar credibilidade.

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