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Quem cuida da saúde mental de jovens líderes? – 08/07/2026 – Papo de Responsa

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É bonito quando alguém transforma a própria dor em solução. Gostamos dessas histórias porque elas organizam o caos em narrativa: havia uma falta, alguém sofreu com ela e decidiu agir.

Celebramos o estudante que cria um projeto para enfrentar um problema que viveu, a pesquisadora que dedica a carreira a entender uma desigualdade que conheceu cedo, a liderança comunitária que tenta mudar o bairro onde cresceu.

Essas histórias inspiram. Mas também escondem uma pergunta incômoda: quem cuida dessas pessoas enquanto elas tentam cuidar do mundo?

Penso nisso porque essa pergunta não é abstrata para mim. Entre uma reunião de pesquisa, uma entrega da faculdade, horas de transporte e as contas do mês, já me peguei pensando quanto tempo é possível sustentar projetos que nasceram justamente da vontade de reduzir desigualdades.

Às vezes, a causa que nos move é a mesma que nos esgota. Vim do interior de Minas Gerais, sou a primeira geração da minha família na universidade e estudo com bolsa integral.

Carrego comigo muitas oportunidades, mas também muitas permanências em disputa: permanecer estudando, trabalhando, criando, pesquisando, tendo saúde, sem transformar todo cansaço em prova de mérito.

Não sou exceção. Vejo jovens que chegam a espaços de decisão com ideias enormes e margens muito pequenas. Gente que fala sobre futuro enquanto calcula a passagem da volta. Que lidera projeto social e, ao mesmo tempo, tenta encontrar estabilidade. Que pesquisa desigualdade sem estar fora dela. Que é chamada para inspirar, mas raramente é perguntada sobre o que precisa para continuar.

Segundo dados de 2025 da Organização Mundial da Saúde, um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos vive com algum transtorno mental. O dado ajuda a lembrar que juventude não é sinônimo de energia infinita.

Por trás de muitas trajetórias admiráveis há ansiedade, luto, insegurança financeira, deslocamentos longos e uma pressão silenciosa para dar certo rápido.

Talvez o problema seja a forma como contamos histórias de superação. Quando alguém passa a ser reconhecido por uma pesquisa, uma iniciativa ou uma startup, parece que os obstáculos ficaram no

passado.

Mas transformar dor em propósito não significa deixar de conviver com ela. Muitas vezes, significa aprender a carregá-la em público.

Por isso, se queremos mais jovens participando das soluções para o Brasil, precisamos discutir menos a inspiração que eles produzem e mais as condições que recebem.

Bolsa, mentoria, rede de apoio, acesso à saúde mental e tempo para descansar não são acessórios. São infraestrutura para que boas ideias não dependam apenas da capacidade individual de aguentar.

Continuo acreditando na força de quem transforma. Talvez até mais do que antes. Mas não quero que a minha geração seja lembrada apenas por fazer muito com pouco.

Quero que ela tenha o direito de fazer melhor com o suporte necessário. Inspirar jovens é importante. Sustentá-los talvez seja ainda mais.


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