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Que mal tem uma exclamaçãozinha aqui, outra ali? – 25/07/2026 – Antonio Prata

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Parei. Já fazia um tempo, sentia que não estava me fazendo bem. Comecei a usar como todo mundo. De vez em quando. Socialmente. Em busca de um brilho, uma ênfase. Quando dei por mim, precisava o tempo todo. Era como se, sem ela, tudo perdesse a intensidade. Com o uso contínuo, a tolerância aumenta e você tem que usar mais e mais pra atingir o mesmo efeito. Nos últimos anos, se alguém me perguntasse por WhatsApp, sei lá, “Seu CEP é 01879-090?”, eu era capaz de responder “Sim!!!”. Sim, meus caros, cheguei a esse ponto. Ou melhor, a esses pontos: pra confirmar meu CEP eu podia meter três exclamações —às vezes, antes do meio-dia.

A maioria dos vícios a gente planta na adolescência pra colher na juventude. Minha dependência por exclamações foi floração tardia. Sou do século 20, das priscas eras em que as combinações eram ao telefone, entre uma boca e um ouvido. A ênfase era dada pelas cordas vocais —que, embora sejam apenas duas, têm muito mais acentos e pontuações do que as centenas de páginas da gramática. A pessoa pergunta “Seu CEP é 01879-090?” e há mil tons para soar simpático, gentil, atencioso. Já o teclado, pensava eu, com seus botões, me dava apenas duas opções —e, para escapar da rispidez do ponto final, caía na estultice da exclamação.

Antes do smartphone, enquanto estávamos só no email, ainda dava pra me controlar —ou, ao menos, me enganar. Que mal tem uma exclamaçãozinha aqui, outra ali? Tava todo mundo usando. Foi com o advento do WhatsApp, contudo, que ficou difícil mentir para mim mesmo. As mensagens se acumulavam uma em cima da outra, como latas de cerveja no lixo da cozinha. Olhava pra tela, nem três da tarde e já tinham ido 25 exclamações!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Agora: a coisa desandou mesmo foi com os emojis. Semanas atrás, num grupo de zap, um amigo perguntou “na massa de pizza é fermento biológico, né?” e eu respondi… Eu respondi… [Desculpa. Dando uma pausa, aqui. É muito recente, difícil falar, ainda.] Eu respondi com… Com três smiles cercados por corações. Na frente do grupo todo. Tinha editor lá. Professor da USP. Pai de amigo meu. Que é editor e professor da USP. No dia seguinte, depois de horas na cama a roer minha ressaca, decidi: basta.

Não, não foi assim, uma epifania, como se eu tivesse sido acometido por um bem súbito. Foi um longo percurso ajudado por Freud, Lacan, “O Poder do Hábito” e Cloridrato de Sertralina —além de amigos e parentes. Pois, com muita análise, Zoloft, autoajuda, apoio (e reprimenda) moral, consegui me olhar no espelho e dizer: “Antonio, não há rispidez no ponto final” —embora quase sempre haja estultice na exclamação. “Camarada, afinal, você é um escritor ou um animador de circo?”

Ontem à tarde recebi um zap: “Senhor Antonio, seu CEP é 01879-090?”. Ajeitei as costas. Respirei fundo e respondi. “É”. Fiquei olhando aquele “É”, seco como uma lagartixa morta no quadro de luz. Voltei os dedos pro telefone. Pensei que fosse ter uma recaída, mas escrevi “é esse, sim, mas por favor, não mande mais suas ‘ótimas oportunidades de coberturas na Vila Nova Conceição’. Sou um cidadão de modestas posses e vivo de aluguel. Obrigado.”.

Acabo de voltar do analista. Ao ouvir que eu tinha parado com as exclamações, ele decidiu que nosso processo tinha chegado a seu ponto final. Tive alta! Alta!!! Alta!!!!!


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