InícioOpiniãoQuando ensinar medicina vira ato de coragem - 23/05/2026 - Opinião

Quando ensinar medicina vira ato de coragem – 23/05/2026 – Opinião

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A instituição em que trabalho, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), vive um problema grave e complexo. Há indícios da existência de um grupo que planejaria violência contra mulheres no curso de medicina. No meu segundo pós-doutorado, conduzo um estudo sobre sexismo no meio médico. Pela primeira vez, tive medo de violência apenas pela temática que pesquiso. Estamos literalmente cutucando onças masculinas com varas bem curtas.

Quando tive conhecimento das denúncias, minha primeira atitude foi verificar se as alunas que trabalham na pesquisa estavam seguras. Compreendi que estamos todas sujeitas a riscos, que posso ser professora e ensinar o meu melhor, mas sou incapaz de proteger todas as mulheres.

Na medicina, o que importa é o cuidado. Cuidar da dor, das doenças, da prevenção. Cuidar da vida e aliviar os sofrimentos de quem está morrendo. Se não conseguirmos sensibilizar profissionais e estudantes para a necessidade do cuidado, teremos falhado. E quem perde é uma sociedade inteira.

Em uma aula recente, para a minha surpresa, havia um estudante com fones de ouvido. Adverti-o educadamente: “O senhor se incomodaria de retirar os fones durante a aula?”. Parece óbvio, mas o óbvio precisou ser dito. Ele estava alheio, concentrado no computador. Informei à turma que poderiam sair sem prejuízo e que seguiria com quem quisesse ficar. Minutos depois, o mesmo estudante estava no telefone, alegando que ouvia um áudio. Não havia mais como interpretar como descuido. Respirei fundo, muito fundo…

Pedi educadamente que resolvesse questões pessoais fora da sala, mas que a atitude de desinteresse e desrespeito não era compatível com a prática médica.

O estudante tentou se defender com o argumento “professora, todo mundo está no celular”. Ao apelar para “todo mundo”, ele se eximia da responsabilidade pelo próprio ato. Mas as mães já diziam que “a gente não é todo mundo”. Se quisermos um mundo melhor, precisaremos de escolhas melhores. Ou sair da sala, da profissão, e evitar constrangimentos.

O estudante pediu desculpas no final da aula e eu as aceitei. Mas a indiferença que vi não é dele apenas. É sintoma de uma cultura que ainda acredita que a ética chega pronta na universidade, ou que se aprende sem o mesmo cuidado dedicado às competências técnicas. Até quando vamos nos calar diante do mau comportamento?

A violência contra a mulher é estrutural e só não a enxerga quem não quer. Sou mulher, médica e professora. Tive o privilégio de estudar em instituições públicas e me sinto no dever de devolver o que aprendi às futuras gerações de médicas e médicos. Só não sei se querem me escutar.

Desde a notícia da possível violência, estou aflita. Somado ao episódio dos fones, fico pensativa. Mudo as minhas aulas mais uma vez? Desisto da tarefa docente? Tenho me sentido incapaz de transmitir valores essenciais da prática médica a estudantes que preferem os fones e desprezam professoras mulheres. Ainda mais no cenário vivo de uma denúncia de violência contra a mulher.


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