A lógica desenvolvida por Nicolau Maquiavel em O Príncipe parece dialogar com a tentativa de Valdemar da Costa Neto, desde 2022, de viabilizar Tereza Cristina como vice ideal à Presidência da República.
Sob a ótica do pai da política moderna, alianças não existem para embelezar chapas, mas para alterar a correlação de forças, sobretudo quando conseguem furar a bolha dos próprios apoiadores. Nesse ponto, a escolha feita em 2022 falhou: não agregou votos em outros segmentos do eleitorado, não ampliou a proteção política em um ambiente hostil e tampouco criou qualquer dependência estratégica capaz de elevar o custo de eventuais investidas dos adversários. Em outras palavras, foi uma aliança inócua – e, para Maquiavel, alianças inócuas são erros. Esse é precisamente o tipo de equívoco que não poderia ser repetido em 2026.
Desde que este texto foi concebido, os movimentos políticos reforçaram ainda mais a centralidade dessa discussão. A defesa pública da senadora Tereza Cristina (PP) pelo presidente do PL, o reposicionamento – ou a neutralidade – de partidos do centro e as dificuldades enfrentadas pela oposição demonstram que a escolha do vice deixou de ser uma formalidade para se tornar um dos principais cálculos estratégicos da sucessão presidencial.
Muito se fala sobre o tema sob diferentes enfoques – setor produtivo, recortes estatísticos, arranjos partidários e impactos eleitorais nos principais colégios do país. Mas o ponto central é outro. Em Maquiavel, não basta somar; é preciso somar com utilidade estratégica, seja para ampliar apoio, seja para reduzir riscos.
Com o avanço do calendário eleitoral, as margens para tentativa e erro diminuem. A escolha do vice deixa de ser um exercício de marketing político para voltar a ser aquilo que Maquiavel provavelmente reconheceria de imediato: uma decisão sobre sobrevivência, estabilidade e arquitetura do poder
Nesse contexto, a escolha do vice deixa de ser um detalhe protocolar e passa a ser um dos movimentos mais relevantes da disputa. Não por acaso, a história política brasileira é pródiga em exemplos de vice-presidentes que terminaram mandatos presidenciais, o que revela que o cargo, embora frequentemente subestimado, é estrutural, sobretudo para o dia seguinte à posse.
Se o próximo pleito será, como se diz, uma eleição marcada por elevados índices de rejeição, em um cenário de desgaste relevante do governo – ainda que sempre se possa contar com a força da máquina pública –, a lógica maquiaveliana impõe à oposição um critério simples: o vice ideal não é o mais leal, nem o mais simbólico, mas aquele que torna a vitória mais provável, preserva melhores condições de governabilidade e reduz os custos de uma eventual derrota.
À medida que as convenções partidárias se aproximam, as conversas deixam de girar em torno de afinidades pessoais e passam a revelar preocupações com governabilidade, ampliação da base política, demonstração de resiliência em meio à crise e capacidade de sustentação institucional.
A experiência recente da política brasileira oferece exemplos eloquentes desse padrão. Em 2022, a composição vencedora demonstrou maior aderência a essa lógica: a escolha do vice não decorreu de afinidade simbólica, mas de utilidade estratégica.
Há, ainda, um dado curioso – e pouco explorado – na trajetória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva: em todas as disputas presidenciais que protagonizou, jamais escolheu uma mulher como candidata a vice. É verdade que foi responsável por conduzir Dilma Rousseff à Presidência da República, o que está longe de ser um movimento trivial. Ainda assim, esse gesto também pode ser lido, sob uma perspectiva maquiaveliana, como uma decisão voltada à preservação do controle político: uma sucessora construída internamente, sem base autônoma consolidada, favorecendo maior continuidade e menor risco de dissidência.
Em outras palavras, quando o poder está em jogo, a política tende a abandonar símbolos e a operar por critérios mais duros, como previsibilidade e controle. A manutenção de Geraldo Alckmin como vice demonstra precisamente esse raciocínio: mais do que afinidade, trata-se de preservar uma composição que já produziu resultados políticos relevantes.
Por isso, a escolha do vice em 2026, no campo da direita, não pode repetir o erro de 2022. Precisa ser uma aliança real, pragmática e funcional, capaz de produzir efeitos concretos na disputa. Caso contrário, não será uma aliança – será apenas companhia.
Sob essa perspectiva, ganha sentido a insistência de Valdemar da Costa Neto em torno do nome de Tereza Cristina. Independentemente de a composição vir ou não a se concretizar – e mesmo diante das negativas públicas da senadora –, a hipótese revela um raciocínio estratégico consistente: ampliar a interlocução com o agronegócio, reduzir resistências no eleitorado feminino, fortalecer pontes com partidos de centro e aumentar as chances de formação de uma coalizão de governo e de uma maioria parlamentar, ainda que inicial e naturalmente volátil.
É verdade que a definição da chapa ainda não se consolidou e que outros nomes continuam sendo cogitados. Mas os principais articuladores políticos sabem que nem todas as composições produzem o mesmo efeito: algumas agregam apenas no curto prazo, enquanto outras estruturam a disputa desde o primeiro turno até o exercício do poder.
Com o avanço do calendário eleitoral, as margens para tentativa e erro diminuem. A escolha do vice deixa de ser um exercício de marketing político para voltar a ser aquilo que Maquiavel provavelmente reconheceria de imediato: uma decisão sobre sobrevivência, estabilidade e arquitetura do poder. É justamente por isso que algumas alianças entram para a história, enquanto outras permanecem apenas como companhia.
Se há uma lição que a leitura de O Príncipe parece oferecer ao debate atual, é que a boa política não consiste em surpreender por surpreender, mas em estruturar o poder de modo que os riscos assumidos sejam estratégicos, e não fruto do improviso.
Hudson Alves da Silva Lima, advogado, é pós-graduado em Processo Civil.

