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Peru: Keiko Fujimori usa legado do pai para vencer eleição – 03/07/2026 – Mundo

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A instabilidade virou regra no Peru durante a última década. A Casa de Pizarro abrigou 9 presidentes, 4 deles destituídos. Dez partidos conheceram o Congresso de 130 cadeiras, e apenas 3 foram eleitos mais de uma vez ao longo desse período. As ruas viram ao menos seis ciclos de protesto.

Mas uma coisa era certa: Keiko Fujimori sempre chegaria ao segundo turno das eleições presidenciais —e perderia. Até este ano.

A populista de direita foi proclamada presidente eleita nesta sexta-feira (3) quase um mês após derrotar o esquerdista Roberto Sánchez por uma margem de quase 50 mil votos, de acordo com o Onpe (Escritório Nacional de Processos Eleitorais). Foram 49,865% dos votos em Sánchez ante 50,135% em Keiko, que tentava alcançar o cargo pela quarta vez consecutiva.

O resultado foi quase uma revanche de 2021, quando a política concorreu com o padrinho do adversário, Pedro Castillo. Assim como naquele ano, o pós-pleito foi marcado pela judicialização da apuração. Desta vez, em vez de Keiko, foi o candidato de esquerda que tentou anular milhares de votos favoráveis a adversária.

A divisão praticamente pela metade prenuncia um mandato difícil para Keiko, que enfrenta altas taxas de impopularidade —o placar virou a favor da presidente eleita quatro dias após as eleições, quando eram contabilizados os votos do exterior, enquanto o mundo rural do Peru era a fortaleza de Sánchez.

A rejeição é causada pelo mesmo fator que a confere popularidade: seu pai, Alberto Fujimori. O ditador governou o Peru de 1990 a 2000, período no qual deu um autogolpe —ato responsável por desmantelar o sistema político da época, o que sentenciou o país ao caos descrito no início do texto.

Fujimori não conseguiu ver a filha mais velha se tornar presidente: ele cumpria uma pena de 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção quando morreu, em 2024.

Se a força do antijufimorismo coloca Keiko em uma situação delicada, a habilidade política da presidente eleita a torna uma forte candidata a cumprir o mandato após dez anos de troca frenética no Executivo.

Enquanto trabalhava para chegar ao poder, a política conquistou influência em outras instituições do Estado a partir do Congresso. A partir de julho, o seu partido, o Força Popular, vai se manter como a maior bancada tanto na Câmara de Deputados (41 cadeiras de 130) quanto no Senado (22 cadeiras de 60).

Não que ela já não estivesse perto do poder antes. Nascida em 1975 em Lima, Keiko viu seu pai chegar ao poder aos 15 anos. Aos 18, foi aos Estados Unidos para cursar administração de empresas na Universidade de Stony Brook —estudos que teriam sido pagos pelo chefe do SIN (Serviço de Inteligência Nacional), Vladimiro Montesinos. Aos 22 anos, completou a graduação.

O curso, porém, teve um hiato. Em 1994, quando tinha 19 anos, Keiko voltou ao Peru para ser primeira-dama de seu pai. Ele ficara sem Susana Higuchi, com quem havia se casado em 1974. O casal se separou após a então esposa de Fujimori afirmar a jornalistas que familiares do ditador se apropriavam de doações de roupas vindas do Japão que deveriam ser destinadas à população pobre do país.

Outras denúncias vieram ao longo dos anos, mas foi a de 2002 que mais chocou a população. Naquele ano, Susana falou diante uma comissão de investigação do Congresso que, durante os dez anos do regime, foi torturada cerca de 500 vezes a mando de Fujimori nos porões dos serviços secretos.

“Eles me levaram com os olhos vendados, me encapuzaram e me levaram para algum lugar. Me torturaram com golpes até que eu perdesse a consciência. Me injetaram algo para me fazer dormir completamente. Lá, aplicaram eletrochoque”, afirmou.

“Sofri tortura com eletrochoques em duas ocasiões: uma em 1992 e outra em 2000. Os eletrochoques ocorreram após a denúncia sobre as roupas doadas, após o autogolpe, e durante aqueles quatro meses em que me mantiveram presa no [Quartel-General do Exército]”, continuou. Na ocasião, Susana mostrou cicatrizes na face e na nuca e queimaduras na parte posterior do pescoço.

Durante anos, Susana e seus quatro filhos permaneceram rompidos. Em 2002, ela chegou a afirmar a uma revista que Keiko a havia abandonado e preferido ficar com o “dinheiro sujo de seu pai”. No final da vida, porém, reaproximou-se da filha e a apoiou nas eleições de 2016 e 2021, pouco antes de morrer.

A despeito desse episódio e de tantos outros escândalos envolvendo Fujimori, foi só quando Keiko abraçou completamente o legado do pai que conseguiu se eleger.

“Para combater o terrorismo, as Forças Armadas e a polícia nacional foram reforçadas, e trabalhamos com patrulhas camponesas, comitês de autodefesa e comunidades organizadas. O Estado estabeleceu uma presença em todo o país”, disse Keiko durante o debate anterior ao segundo turno, em referência ao regime de seu pai. “Faremos o mesmo para combater o crime agora.”

A política foi congressista de 2006 a 2011 e, desde então, dedica-se à Presidência do Força Popular. Em 2018 e 2019, ficou mais de um ano presa sob acusação de ter recebido subornos da Odebrecht. Agora, torna-se a primeira mulher eleita presidente no Peru —o país já teve uma líder, Dina Boluarte, mas ela assumiu após a queda de Castillo.

Em seu comício de encerramento antes do segundo turno, a presidente eleita prometeu “dar um passo em direção ao diálogo e ao consenso” e “construir pontes nos abismos mais profundos” da divisão do país. É um desafio: a ponte deverá ser construída com metade do país, que a rejeitou três vezes e, por pouco, não o fez uma quarta vez.

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