InícioOpiniãoPara calar a fé dos outros, a promotora impôs o seu dogma

Para calar a fé dos outros, a promotora impôs o seu dogma

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A cena é de Duque de Caxias, numa sexta-feira. Um grupo de crianças se apresenta num fórum de conselheiros tutelares. Enquanto a molecada troca de figurino, o instrutor lê um poema sobre o abraço de Deus. Uma promotora de Justiça pega o microfone e anuncia à sala que aquilo é inconstitucional. A plateia responde “Oba!” Alguém solta um “Ê, ê”. E ela carimba a palavra: inconstitucional. Uma criança fantasiada, um poema sobre um abraço, e a máquina do Estado convocada para decretar ilegalidade, com torcida organizada.

Há um fundo quase defensável na intuição dela. O Estado não professa religião oficial, e, por isso, não deve obrigar ninguém a rezar, não deve premiar o crente e punir o ateu. Isso se chama laicidade, e é uma conquista civilizacional, própria da cristandade. Só que não foi isso que a promotora defendeu. O que ela fez, como agente do Estado, foi exigir que particulares engolissem a própria fé pública dela. Invocou a liberdade religiosa para caçar uma manifestação religiosa. A Constituição protege o culto e o direito de manifestá-lo, publicamente. Ela leu a parte que lhe convinha.

A promotora não defendeu a laicidade. O que ela fez, como agente do Estado, foi exigir que particulares engolissem a própria fé pública dela

Houve um tempo em que eu teria batido palma com a plateia, e com a convicção de um catecúmeno. Deus me parecia assunto de quarto fechado: mania particular que gente adulta guardava entre o travesseiro e a consciência. Levou tempo para eu desconfiar de que aquela certeza também era uma fé, e das mais intolerantes. Quem já morou no culto o reconhece de longe.