Redação Tribuna do Norte
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00h12

Era uma vez uma Copa do Mundo na América do Norte. Distante dali, uma torre que não se ergue mais com tijolos e concreto, mas com fibra óptica, algoritmos vorazes e cafeína virtual, virava palco de uma batalha raivosa envolvendo etnias distintas e divergentes.
A nova Torre de Babel atende pelo nome X, o antigo Twitter, onde a piada, a provocação, o ódio e o preconceito são avaliados conforme o humor do dono. E ali, como na antiga planície de Sinear, perfis resolveram construir um monumento à própria glória.
Todos querendo provar que sua nação, sua seleção e seu meme eram os maiores do universo conhecido. Desta vez, porém, o Senhor dos Exércitos não precisou descer para confundir as línguas com aconteceu na Mesopotâmia.
A torre de Elon Musk já havia feito um serviço melhor: criou tradutores automáticos, emojis irados e desaforos prontos em caps lock. E o resultado foi ainda mais espetacular do que no livro Gênesia, da Bíblia judaica.
Em poucos dias, brasileiros, japoneses, sul-coreanos, europeus e chineses ergueram uma babel digital tão ruidosa que até os anjos pediram transferência para outro servidor. No centro do furacão coube direitinho a Copa do Mundo.
A velha senhora da bola sabe bem fingir que une os povos enquanto serve de pretexto para que eles se odeiem com entusiasmo. Brasil e Japão entraram em campo, e as torcidas, em vez de assistir ao jogo, resolveram disputar a final da geopolítica de boteco.
De um lado, o brasileiro clássico, mestre em ironia tropical: “Japão pode ganhar de 1×0? Normal, eles são bons em copiar. Até o gol é inspirado no nosso de 2002.” Do outro, o japonês, educado até na raiva: “Obrigado pelo elogio”.
Mas logo diz “nosso trem chega no horário e suas estradas são buracos”. O sul-coreano entra de contragolpe: “Vocês dois brigando por causa de futebol enquanto nós inventamos o K-pop e a internet que vocês usam para xingar”.
Um perfil europeu, com ar superior, joga o clássico: “Que coisa primitiva esse nacionalismo esportivo. Aliás, já viram o PIB per capita do meu país?” E o chinês, com serenidade milenar: “Quieto, senão solto as rédeas da Rússia”.
Evidente que o imbróglio multinacional no X está longe da delicadeza das aspas que criei como exemplificação da celeuma, que de educada não tem nada. Os xingamentos extrapolam os limites da raiva, explodem puro ódio.
A mesma plataforma que prometia conectar o mundo, produzindo, em tempo real, a demonstração mais rasa de que o mundo não quer se conectar: quer vencer. Cada curtida vem com um tijolo, cada replique com uma pedrada.
Em cada postagem tem uma nova língua que ninguém entende, nem mesmo quem fala. O Google Translate virou arma de destruição em massa. Uma piada brasileira sobre “olhinho japonês” virou “o Brasil diz que somos míopes”.
A diplomacia, só se for a canônica do “vá tomar no cu” traduzido para doze idiomas. A ironia maior é que a Babel original fracassou porque os homens não se entendiam. A versão X é sucesso exatamente porque se entende tudo.
E todo mundo sabe que o outro está ofendendo. E continua. Porque, no fundo, o futebol nunca foi sobre a bola. É sobre a necessidade ancestral de pertencer a algo maior que nós e, de preferência, humilhar quem pertence a algo menor.
E enquanto a bola rola no gramado, a verdadeira partida acontece na timeline. Nela não há árbitro, não há VAR e, sobretudo, não há vencedor. Aliás, nesta guerra de agressões insanas não há nem ministro do Supremo de plantão.
Há apenas uma torre cada vez mais alta, feita de rancor, orgulho ferido e stickers de risada. O dono da Babel bíblica, se ainda acompanha as redes, deve estar rindo. Ou talvez esteja apenas multando as notificações.
Porque, no final das contas, o que une a humanidade não é a paz. É a capacidade infinita de transformar qualquer coisa, inclusive uma simples partida de futebol, numa guerra santa de narrativas. Que vença o pior.
LuanaNews
Enquanto Lula autoriza meio bilhão para propaganda antes das convenções (depois é proibido pela lei eleitoral), a Folha destaca despejo de R$ 1,3 milhão em perfis das redes que critiquem Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
Misoginia
Enquanto a Câmara Federal discutia ontem a votação do Projeto de Lei que trata violência contra a mulher como crime de racismo, um deputado soprava pra outro: “toda lei tem brechas, essa terá portas para bater em companheira”.
Senado
Um assunto político atravessou nas conversas de futebol de alguns grupos reunidos nos jogos da Copa do Mundo. Há apostas arriscando que o empresário Marcos Solano poderá ser o suplente da senadora Zenaide Maia.
Marajás
Do jornalista Franklin Machado, sempre afiado nas redes sociais: “O Supremo formou maioria para restabelecer parte dos penduricalhos dos magistrados. Como já dizia meu pai: não é nada, não é nada, é meio caminho andado”.
Tribunal
De François Silvestre, sobre a discussão da nomeação do juiz Henrique Baltazar no TJRN: “A toga posta em Henrique Baltazar, para desembargador, coroa, na minha opinião, uma carreira digna de respeito e de deferência”.
Ausentes
O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho continua com comentários ácidos e virulentos em canais do YouTube da cena carioca. E faz um prognóstico que jura acertar: Lula e Flávio Bolsonaro não serão candidatos.
Paraguai
Para entender epopeia da seleção guarani. A Alemanha havia perdido pela última vez uma decisão por pênaltis há 50 anos, na final da Eurocopa 1976 quando a Tchecoslováquia venceu por 5 x 3 com o gol mítico de Panenka.
Camisas
A coincidência nos números 13 e 22 nas camisas de Danilo (que falhou no gol japonês) e de Martinelli (que fez o gol da vitória brasileira) gerou um bombardeio de memes. Mas é mentira que o jogador elogiou Jair Bolsonaro.
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