A pesquisa Meio/Ideia informou na semana passada que Michelle Bolsonaro é a mulher mais poderosa do país. Como alguém que se apresenta como recatada e do lar tem mais força do que a atual primeira-dama, que é feminista e tem título universitário?
Progressistas erram ao perceber conservadoras como acomodadas ao papel de mãe e esposa. “A palavra submissa já guarda um desentendimento sobre a mulher virtuosa”, explica a antropóloga Christina Vital, da UFF. “Dá a ideia de uma passividade, que não é o que as mulheres virtuosas bíblicas têm.”
“Elas podem ser muito poderosas na vida familiar e também na pública. E biblicamente, seu marido é tão comprometido e ligado à família e às obrigações religiosas quanto ela”, completa Christina.
Michelle amplia sua influência num momento particular para o movimento evangélico. As grandes lideranças nacionais estão envelhecendo —os pastores da geração de Silas Malafaia e Edir Macedo se aproximam ou já ultrapassaram os 70 anos.
Ela é jovem, nativa digital e percebida como crente legítima. Comunica-se com evangélicas diretamente pelas redes, independentemente da denominação. Provou, como presidente do PL Mulher, que entrega resultados, e seu nome é mais conhecido do que o de qualquer parlamentar da bancada.
Essa influência cresceu quando conquistou autonomia em relação ao clã Bolsonaro. Entregou a presidência do PL Mulher para não precisar apoiar Flávio. Resistiu aos ataques do gabinete do ódio de Eduardo e Carlos. Saiu anunciando o Imparáveis MB —levando consigo o contato com 72 mil filiadas que entraram no partido durante sua gestão.
Michelle continua exposta à violência política que vem de homens do próprio campo. Tem, porém, interlocutores poderosos: o pastor Cláudio Duarte, influenciador com milhões de seguidores, Damares Alves, a nata do mundo gospel, e André Mendonça, ministro do Supremo a cargo dos casos do Banco Master e do INSS.
Além de serva de Deus, ela é percebida por mulheres conservadoras, muitas de origem popular, como um caso de Cinderela —a jovem mãe solteira que se torna líder de um movimento sem abrir mão das responsabilidades na família.
Hoje pode ser descrita como a principal influenciadora da direita, com plataforma compatível com a de Anitta ou Erika Hilton —referências de alcance de público, não de posição política.
Vem sendo testada em pesquisas presidenciais ao lado do nome do presidente da República e não nega disponibilidade para concorrer. No início do ano, Malafaia a defendia como vice de Tarcísio; ainda é mencionada como vice de Caiado e Zema se Flávio desistir.
Michelle pode seguir apenas como influenciadora, sem cargo eletivo, e mesmo assim ser um nome importante do campo. Mulheres são maioria nas igrejas evangélicas —sua presença tensiona um ambiente historicamente masculino.
Em 2030, com o fim da era Lula, o ti-ti-ti cristão antecipa dois nomes nas urnas: Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro.
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