Ao recortar apenas a dor do presente e omitir as raízes do conflito, parte do debate sobre Israel troca história por slogan, complexidade por conveniência moral e direitos humanos por seletividade política.
Narrativas seduzem porque simplificam. Conflitos reais não cabem nesse atalho. Quando o debate começa no meio, quase sempre termina longe da verdade.
É isso que ocorre quando se fala de Israel. O sofrimento palestino é real e não deve ser negado. Mas seu uso político costuma vir acompanhado de amputação histórica. A presença judaica naquela terra é milenar. Em 1947, quando a ONU aprovou a partilha, a proposta era criar dois Estados, um judeu e um árabe. A liderança judaica aceitou. A árabe rejeitou. Israel nasceu apesar da recusa à coexistência.
Também é cômodo chamar Israel de projeto colonial. A fórmula funciona como palavra de ordem, mas não resiste aos fatos. Israel acolheu judeus perseguidos em países árabes. Reduzir essa história à linguagem automática do colonialismo é substituir análise por militância.
O regime dos aiatolás criou um cinturão de fogo contra Israel, armando e financiando Hamas, Hezbollah e houthis. Seu objetivo declarado é a destruição de Israel. As guerras que Israel é forçado a lutar são, em larga medida, alimentadas por Teerã, que usa outros povos como instrumento geopolítico enquanto oprime os próprios iranianos.
Causa espanto ver setores que se dizem progressistas relativizarem uma teocracia que persegue mulheres, dissidentes, minorias e opositores. Um debate honesto não pode transformar um regime autoritário em personagem defensivo de uma narrativa antiocidental. Ignorar isso é trocar direitos humanos por conveniência ideológica.
Esse problema se agrava quando imagens ou charges são publicadas sem contexto histórico. Foi o que ocorreu com a ilustração veiculada pela Folha no dia 22 de abril. Em uma charge de Laerte, Jesus é golpeado com uma marreta por um soldado, que, na cena seguinte, aparece igualmente crucificado. Uma imagem pode ser legítima como recurso editorial, mas, quando recorta uma realidade complexa, deixa de iluminar e passa a distorcer. Ao sugerir uma leitura simplificada de um conflito profundo, reforça-se aquilo que deveria ser combatido: a transformação da realidade em narrativa conveniente.
A questão não é negar a dor palestina nem minimizar a tragédia humanitária da guerra. É recusar a lógica segundo a qual algumas vítimas merecem indignação e outras podem ser apagadas porque atrapalham o roteiro. Palestinos importam, israelenses importam, iranianos importam. Direitos humanos não deveriam depender do alinhamento político das vítimas.
No fundo, essas narrativas não falseiam apenas pelo que dizem, mas pelo que omitem. Apagam a recusa original à partilha, o vínculo histórico judaico com a terra, a complexidade de Gaza, o papel do Irã e a repressão interna de regimes que se apresentam como resistência enquanto esmagam seus cidadãos.
No fim, sobra uma versão moralmente confortável, mas historicamente mutilada. Narrativas poupam esforço. A história, não. Só a história inteira permite julgar com honestidade. Todo o resto é recorte, slogan e conveniência.
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