O funeral do aiatolá Ali Khamenei reuniu uma multidão e serve para lembrar como o Irã levou a pior. Mas o cortejo dos restos mortais (que restos?) do líder supremo morto em um bombardeio foi transmitido para o mundo como se fosse um ato de resistência e, acreditem, vitória. A inversão da realidade em favor de seus objetivos é uma das características centrais do regime e um poderoso recurso de guerra assimétrica.
Teerã sabe que não pode derrotar os Estados Unidos em uma guerra convencional nem sustentar por muito tempo uma disputa direta contra a maior potência militar do mundo. Por isso, desloca o eixo do conflito. Como não pode vencer no campo militar, tenta vencer no campo simbólico. As oscilações do regime em torno do acordo de paz servem para corroer a credibilidade dos Estados Unidos.
Essa é a natureza da dissimulação iraniana. O regime negocia, recua, nega, reinterpreta, posterga e, quando conveniente, acusa o outro lado de fabricar expectativas inexistentes. Não se trata apenas de mentir. Trata-se de criar uma zona cinzenta na qual ninguém sabe exatamente se houve acordo, pré-acordo, compromisso verbal, minuta aprovada ou apenas conversa exploratória.
Cada ambiguidade produzida pelo Irã é uma arma assimétrica. Se Washington anuncia avanço, o Irã pode negar. Se mediadores falam em entendimento, o regime pode dizer que nada foi assinado. Quantas vezes o presidente Donald Trump afirmou haver chegado a um acordo? Quantas vezes ele ficou na posição de fanfarão? Sem poder vencer uma guerra irregular, os iranianos passam a atacar a credibilidade do presidente Trump e dos Estados Unidos. A vitória deles são os memes nas redes sociais e as manchetes desqualificando os americanos.
A guerra assimétrica não busca apenas efeitos cinéticos. Busca efeitos psicológicos, diplomáticos e informacionais
Um drone que atravessa a defesa inimiga e acerta um alvo limitado pode não alterar o equilíbrio do conflito. Mas gera uma vitória narrativa. Uma embarcação atingida no Estreito de Ormuz pode não mudar a correlação de forças. Mas lembra ao mercado global que Teerã ainda tem capacidade de causar dor. Uma negativa calculada a um anúncio da Casa Branca pode não invalidar a pressão militar americana. Mas alimenta a percepção de que o presidente Trump foi enganado ou humilhado.
O Irã já perdeu muito nessa guerra: seu líder supremo, comandantes, infraestrutura, capacidade operacional, margens de manobra e parte da aura de invulnerabilidade construída durante décadas por meio de proxies, chantagem nuclear e terrorismo terceirizado.
Ainda assim, regimes revolucionários não precisam vencer como Estados normais. Precisam sobreviver, confundir e transformar cada fragmento de resistência em prova de grandeza. A métrica de sucesso de Teerã não é a vitória militar plena. É a capacidade de dizer ao seu público, aliados e adversários que resistiu ao império americano.
Por isso, a mentira não é um acessório retórico. É instrumento de guerra. O regime iraniano usa a palavra como usa drones baratos: para saturar defesas, produzir ruído, criar custo político e obrigar o adversário a gastar energia corrigindo a realidade. Em democracias abertas, onde imprensa, oposição e burocracias disputam fatos em tempo real, essa tática tem valor especial. Teerã não precisa convencer todos. Basta oferecer munição suficiente para que críticos domésticos do presidente Trump transformem a ambiguidade iraniana em acusação contra Washington.
Isso não significa que todo anúncio americano seja perfeito, nem que qualquer crítica a Trump seja ilegítima. O problema é que, em conflitos de zona cinzenta, a pressa em tratar toda contradição como prova de mentira presidencial pode colocar parte da imprensa dentro do ciclo informacional desenhado pelo adversário. O regime iraniano sabe que parte do debate americano não separa a análise do inimigo externo da disputa doméstica contra Trump. E explora essa fissura com disciplina.
Quanto mais o debate ocidental se concentra na suposta humilhação americana, menos atenção sobra para a conduta objetiva do Irã: atacar, negar, negociar, violar, acusar e voltar à mesa em condições mais favoráveis. Essa é a armadilha. O Ocidente tende a perguntar se o Irã está pronto para assinar um acordo. A pergunta correta é se o Irã considera a assinatura mais útil do que a recusa. Para um regime que vive da resistência como mito fundador, não assinar também comunica. Adiar comunica. Mentir comunica. Desmentir o presidente Trump comunica. Cada gesto alimenta a narrativa de que a República Islâmica ainda pode constranger a maior potência militar do planeta.
A resposta americana, portanto, não pode ser apenas militar. Também precisa ser cognitiva. É necessário reduzir o espaço da ambiguidade, exigir compromissos verificáveis e tratar a dissimulação como parte da doutrina iraniana, não como folclore diplomático. A guerra contra regimes assimétricos não se vence apenas destruindo arsenais. Vence-se também impedindo que eles convertam derrotas materiais em vitórias simbólicas. O Irã entende isso. A pergunta é se o Ocidente, consumido por suas próprias disputas internas, ainda entende.

