O grito

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Vontade de gritar. Um berro primitivo. Um urro que não diga nada. Que apenas esvazie meus pulmões. Gritar como se não tivesse vocabulário, ideias ou argumentos. Como quem não acredita que o outro está disposto a ouvir. O grito como uma forma bruta de existir. Gorila batendo no peito, sabe? Gritar um daqueles gritos de arranhar a garganta. De assustar. De medo que impõe medo. Bicho encurralado, sem nada a perder. O grito que é sempre um grito de desespero. Isto é, grito de quem cansou de esperar.

Pena que o quadro de Edvard Munch tenha virado carne-de-vaca. Há nele algo que expressa mais do que a angústia óbvia típica do expressionismo. É o grito de quem está no limiar da loucura. Do cansaço. Grito de quem não entende o que ocorre ao seu redor: tanta burrice, tanta canalhice, tanto ódio, tanta guerra, tanta morte, tanto tanto. Não entendo. Quero gritar, mas me contenho. Por que me contenho? Não entendo. Quero gritar, gritar, gritar, gritaaaaaaaaaaaaaaaar. Mesmo sabendo que nada se ganha no grito. Um grito que é profundamente inútil e humilhante em sua inutilidade.

Oração

O inferno como o imagino é assim: um grito que ecoa pela Eternidade. Milhões de almas numa sequência de aaaaaaaaaaaas e hhhhhhhhhhhs e !!!!!!!!!!!s. Gritos que não alteram a sentença. A danação. Gritos de quem se arrepende, mas agora é tarde. De quem não teve coragem quando foi a hora de ter coragem de gritar. Agora. Na vida. De quem não teve coragem de, em vida, gritar o grito santo. Aquele de quem resolve dar um basta nesse sofrimento silencioso e decide existir assim, sem essa exigência de alcançar a perfeição inalcançável. E se você se incomoda cá estou eu, gritando. Quer me calar? Meu grito te incomoda? Venha!

De volta ao quadro preferido de quem não suporta puxar uma angustiazinha, para usar a expressão do Sabino. Repare que, para além da figura cadavérica que grita um grito mudo, mas impossível de ser ignorado, o grito que ecoa na mente do espectador, há um céu e uma relva e um mar e barquinhos e duas figuras aparentemente tranquilas na composição. O mundo está indiferente ao grito que é sempre esse gesto solitário, de quem implora ser notado. Grito que é também um pedido de ajuda de quem muitas vezes não consegue articular o próprio sofrimento. E que pode ser, me ocorre agora nos estertores da crônica, uma forma de oração.