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O debate sobre máscaras e as ilusões de refutação – 27/07/2026 – Opinião

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A cobertura da mídia sobre a eficácia do uso comunitário de máscaras na pandemia de Covid-19 frequentemente transmitiu a impressão de que a questão científica estaria encerrada e que os poucos discordantes seriam “negacionistas”.

No entanto, muita gente ficaria surpresa ao descobrir que a melhor evidência disponível, sintetizada na prestigiada metanálise da Cochrane Library de estudos randomizados, encontra uma estimativa próxima de zero para o efeito de máscaras cirúrgicas, com margem de erro compatível, no máximo, com um benefício modesto.

Eu, juntamente com meu colega Beny Spira (Instituto de Ciências Biomédicas da USP), sou autor de um estudo publicado em 2025 na BMC Public Health que encontrou uma associação entre maior uso de máscaras e maior mortalidade em excesso em países europeus. Essa associação permanece mesmo após o ajuste para diversos outros fatores que influenciam a mortalidade.

Por ser observacional e usar dados agregados de países, a análise passa longe de estabelecer uma relação causal. Essas limitações são conhecidas em estudos desse tipo. O problema é que, no debate público, elas acabaram sendo tratadas como suficientes para descartar um resultado no mínimo intrigante, ignorando também o contexto fornecido pelas melhores evidências disponíveis.

À primeira vista, parece natural explicar nosso resultado supondo que os países mais atingidos pela pandemia passaram a usar mais máscaras. Essa explicação, porém, se revela insuficiente diante de uma análise mais cuidadosa dos dados. Um artigo publicado ao final de 2025 na The Lancet Regional Health – Americas, noticiado como “refutação” do nosso estudo, propõe justamente essa tese. No entanto, como mostramos em trabalho divulgado ainda como preprint, a análise desse artigo possui problemas sérios: seu resultado principal faz as máscaras parecerem reduzir mortes que ocorreram antes do seu uso, além de violar premissas importantes do modelo estatístico utilizado.

Outra análise que se propôs a refutar nosso estudo foi publicada na coluna Econometria Fácil (“Estudo sobre máscaras e mortes por Covid-19 esconde falha metodológica”, 20/2), desta Folha, e publicada recentemente no Journal of Comments and Replications in Economics, onde minha resposta foi publicada simultaneamente.

O autor propôs uma forma interessante de reanalisar os dados, mas cometeu um erro de implementação surpreendentemente simples. Ele calculou a mortalidade em excesso nos anos de 2020 e 2021 por meio da média dos valores mensais da mortalidade em excesso cumulativa desde o início de 2020. Com isso, sua estimativa de mortalidade em excesso em 2021 atribui cerca de dois terços de peso a mortes ocorridas em 2020. Quando a mortalidade em excesso é calculada corretamente, a conclusão se inverte e passa a favorecer nosso estudo original.

Não negamos as limitações do nosso trabalho, porém suas alegadas “refutações” possuem falhas importantes. Este episódio é um lembrete de que o debate científico é bem mais complexo do que as manchetes fazem parecer.


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