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‘O consumidor é sensível ao preço. Existe perda do poder de compra’, diz Gilvan Mikelyson

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Redação Tribuna do Norte




17h00

Para o presidente da Assurn, a inflação tornou o consumidor mais sensível aos preços e reduziu o poder de compra| Foto: Adriano Abreu

Fernando Azevêdo
Repórter

O consumidor está mais sensível à alta dos preços e tem adaptado seus hábitos diante da perda do poder de compra provocada pela inflação, segundo o presidente da Associação dos Supermercados do Rio Grande do Norte (Assurn), Gilvan Mikelyson. Enquanto parte dos consumidores substitui marcas por opções mais baratas, priorizado itens de menor custo para manter o orçamento, outros, com maior poder aquisitivo, passaram a fazer escolhas mais seletivas, privilegiando produtos considerados mais saudáveis.

Apesar desse cenário, o setor supermercadista do RN vem crescendo mais do que a média nacional e regional. Entre maio e junho deste ano, as vendas do setor cresceram em média 3,8% no RN, 3,5% no Brasil e 1,2% no Nordeste, segundo dados da Nilsen IQ. Conforme a Assurn, há cerca de 2.500 estabelecimentos que vendem alimentos em solo potiguar. Juntos, esses empreendimentos geram cerca de 100 mil empregos diretos.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Gilvan Mikelyson comenta temas como os desafios do setor, o possível fim da escala 6×1 e a reforma tributária.

O setor supermercadista vem enfrentando um cenário de custos elevados e margens cada vez mais apertadas. Quais são os principais desafios para manter a competitividade sem repassar integralmente os aumentos ao consumidor?
A realidade hoje é de alta competitividade. Existe uma desconcentração do mercado, coisa que só existe no Brasil. Em alguns países, três empresas concentram em torno de 70% a 80% do mercado. E no nosso país isso só dá entre 20% e 25%. Existem muitos médios e pequenos [mercados]. Isso estimula a competitividade, e o preço não sobe tanto. Porque uma das armas que as empresas usam é o preço, são as ofertas, são as promoções, então isso faz o mercado competitivo barrar um pouquinho esse repasse. É bem verdade que hoje o que se busca é reduzir os custos operacionais, fazer um planejamento tributário adequado para que não haja tanto impacto sobre esse custo das empresas, que aumenta todo ano, naturalmente, mas as margens realmente têm diminuído bastante.

Diante de um cenário de inflação elevada e alto endividamento, o consumidor de hoje está mais sensível à alta dos preços?
Sem dúvida. Existe uma mudança no consumo por dois motivos. O consumidor que tem condições já está mais seletivo. Ele deixa de consumir um monte de coisas para ter escolhas mais saudáveis, menos ofensivas à sua saúde e por questões estéticas. Então tem esse viés. Mas também existe o consumidor que não consome por não ter condição. Esse migra o seu consumo para substituições mais em conta, com menor preço, substitui marcas, e até diminui alguma quantidade de coisas pela pressão dos preços que estão mais caros. O consumidor é sensível ao preço. Não podemos negar que existe uma perda de poder de compra, baseado na inflação.

A dificuldade para contratar mão de obra também afeta os supermercados? Quais funções apresentam maior escassez de profissionais?
Existe uma escassez de mão de obra [no setor]. Muito se deve à não modernização das relações trabalhistas. Acredito que isso seria uma grande mudança, que aconteceria e melhoraria as relações de emprego. As normas [da] CLT são muito antigas. Hoje o pessoal procura ter muita flexibilidade. A gente tem que buscar um equilíbrio para modernizar essas leis, para que as oportunidades de emprego sejam preenchidas. Temos profissões como padeiro, confeiteiro, açougueiro… Essas são as profissões mais específicas, que requerem treinamento. Essas funções são as mais difíceis de a gente encontrar.

No RN, quais são hoje as principais demandas do setor junto aos governos?
Até que nós temos no estado alguns incentivos fiscais em algumas regiões, em algumas atividades que porventura possam fomentar uma expansão. O momento, na verdade, é que é um momento difícil. A política econômica, não no nosso estado, mas no Brasil, é bloqueada pelos altos juros. Quando você requer capital de terceiros para investir, para se expandir, isso fica meio que bloqueado. Então, não é uma questão muito local. O que eu diria que a gente tem dificuldade a nível estadual? As questões das licenças. A gente poderia dar mais agilidade. Não deixar de cobrar o que tem que ser cobrado, mas na questão de desburocratizar, agilizar, isso poderia ser feito de uma forma mais eficiente.

Quais pontos da reforma tributária trarão os maiores impactos para o setor supermercadista?
As mudanças são muitas. Não só nas empresas, no CNPJ, mas no CPF das pessoas. Nós estamos ainda aprendendo tudo o que vai mudar, tanto que as mudanças são graduais. Vai ter uma mudança no ano que vem, no ano subsequente já muda outra coisa, e vai ser gradativamente. Um ganho que a gente vai ter com a reforma tributária é a questão da cesta básica, zero de imposto dos alimentos, inclusive de proteínas. Isso vai sensivelmente trazer uma facilidade que você vai enxergar na redução do preço ao consumidor desses produtos. E a questão da complexidade do período de transição é que vai ser difícil. As pessoas que não estão com um planejamento tributário estratégico nas suas empresas, que não buscaram uma consultoria, vão ter bastante dificuldade e vão correr um risco severo nas questões das arrecadações, que vão ter que prestar conta com o governo dos seus pagamentos, dos seus tributos, porque pode ser que uma apuração de forma indevida ou errada leve ao fracasso de muitas empresas, muitas pequenas empresas, inclusive.

Como o setor se prepara para um possível fim da escala 6×1?
A discussão é abrangente, mas nós não somos contra a mudança de escala. A gente é a favor apenas de uma modernização das leis que existem hoje, fazendo com que nenhuma perda de direitos seja feita ao nosso colaborador, ao nosso trabalhador, mas que exista um equilíbrio entre esses direitos dos trabalhadores e o pleno funcionamento da nossa atividade, que é uma atividade essencial e que precisa atender o consumidor no sábado, no domingo, no feriado, pela manhã, pela tarde, pela noite, de forma cômoda, com conforto, da maneira que todo mundo quer ser atendido. Precisamos ter gente trabalhando todos esses dias e todos esses horários. A gente tem que encontrar o equilíbrio. Então, longe de a gente ser contra a mudança, [mas] a mudança tem que ser bem debatida, construída e ter uma solução equilibrada para todos nós.

Caso a escala 5 x 2 seja aprovada, quais alternativas se apresentam para o segmento?
Fazer um estudo nas lojas. Primeiramente, não fazer somente a escala do dia, mas a escala de horários, por exemplo. Você ter mais gente no momento em que a loja precisa de mais gente. A questão dos horários de funcionamento, porque, ao manter uma loja aberta, você não vai estar tendo demanda [em determinado] horário e constantemente está sendo observado isso. Então, de uma forma assertiva, também seria reduzir um pouco o funcionamento. Não fechar. Eu não fecharia nenhum dia. Mas reduzir o funcionamento. Concentrar o maior número de funcionários naquele momento que [mais] precisa, contratar funcionários horistas para complementar os CLTs, ter modelos híbridos de funcionamento de contratação para poder preencher a escala. São ideias que a gente já tem em estudo para poder funcionar de maneira organizada e atender o consumidor.

Essa semana Natal recebeu a 4ª edição do ABRAS em Ação, evento da Associação Brasileira de Supermercados em parceria com a Assurn. Quais os principais temas debatidos?
Nós estamos [debatendo] a questão da reforma tributária, que já estamos estudando e está em pauta; a questão da mudança da escala; e as questões do cenário econômico, como os juros elevados, que impactam no bloqueio dos novos projetos e o crescimento das empresas. Os empresários, naturalmente, vão dar uma esperada, principalmente porque este ano é um ano de eleição. Em ano de eleição, o empresário segura um pouquinho os seus investimentos para entender se vai haver mudança de governo. São situações que a gente vem acompanhando junto com a Abras [Associação Brasileira de Supermercados] e disseminando para os nossos associados aqui no estado.

Como os supermercados potiguares estão incorporando inovação para melhorar a experiência do cliente e aumentar a eficiência?
De uma forma ou de outra, as empresas estão buscando a tecnologia. Umas mais rapidamente, cada uma dentro do que tem de condição, aliando sempre a inteligência humana com a inteligência artificial. Você não vai conseguir colocar a inteligência artificial para produzir em seu favor se você não tiver pessoas capacitadas para pilotar a inteligência artificial. É um conjunto, e os nossos associados, as empresas aqui do Rio Grande do Norte, já entenderam isso e estão se aperfeiçoando, treinando pessoas. E isso é uma cultura que está se estabelecendo. É lento ainda, mas, como eu disse, cada um está dando um pontapé inicial de acordo com sua condição.

Como o setor vem se comportando em termos de crescimento no RN? Qual a projeção de desempenho para o restante do ano?
O Rio Grande do Norte cresce não só mais que o Nordeste, mas também mais que o Brasil, em média, o que mostra que as nossas operações aqui estão sendo bem monitoradas pelos empresários. Eles estão trabalhando de forma assertiva, errando, porque todo mundo erra, mas buscando minimizar esses erros e ser mais eficientes. E isso gera resultado. Estamos crescendo acima da média do Brasil e do Nordeste, alavancando a média nacional.

QUEM

Gilvan Mikelyson, 50 anos, é presidente da Associação dos Supermercados do Rio Grande do Norte (Assurn), conselheiro fiscal da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), vice-presidente da RedeMais Supermercados e diretor-comercial da empresa. É farmacêutico e bioquímico de formação.

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