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O Brasil das famílias que trabalham para pagar juros

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Redação Tribuna do Norte




00h00

Robespierre do Ó
Economista

Milhões de brasileiros já não trabalham apenas para sustentar suas famílias, mas também para pagar juros, parcelas e refinanciamentos. Com renda apertada, crédito caro e dificuldade crescente para melhorar de vida, o sonho do carro novo, da casa própria e da estabilidade financeira torna-se cada vez mais distante.

Dizer que o brasileiro é gastador talvez seja a explicação mais simples para o aumento do endividamento das famílias. Da mesma forma, afirmar que a educação financeira sozinha resolverá o problema também parece insuficiente diante de uma realidade em que o dinheiro parece cada vez mais curto e melhorar de vida tornou-se um desafio para milhões de brasileiros.

O aumento das dívidas no Brasil não acontece por acaso. Para muitas famílias, o empréstimo deixou de ser uma ferramenta para realizar sonhos e passou a ser uma forma de fechar as contas do mês. Com salários que muitas vezes não acompanham o custo de vida e inflação próxima de 5% ao ano, milhões de brasileiros recorrem ao cartão de crédito, financiamentos e empréstimos até para despesas básicas. Relatórios recentes da CEPAL mostram que as economias da América Latina continuam crescendo pouco, aumentando a dependência do crédito para manter o consumo das famílias

Em muitos casos, o crédito passou a substituir o crescimento da renda das famílias.

Segundo dados do Banco Central, a taxa média de juros do crédito ao consumidor alcançou 48,26% ao ano em março de 2026. Em outras palavras, o brasileiro paga caro até para tentar reorganizar sua vida financeira.
Muitas vezes, ouvimos que os juros altos existem apenas porque o governo brasileiro gasta demais. O equilíbrio das contas públicas é importante, mas a realidade parece mais complexa. A Turquia, por exemplo, possui dívida pública próxima de 25% da sua economia e mesmo assim enfrenta inflação superior a 30% ao ano e juros elevados. Já a Itália possui dívida pública superior a 137% do PIB e convive com juros ao consumidor próximos de 4% ao ano, muito inferiores aos praticados no Brasil.

Parte do problema está no chamado spread bancário, diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e o valor cobrado dos consumidores. No Brasil, essa diferença chegou a 34,6 pontos percentuais em 2026, uma das maiores do mundo.

A educação financeira continuará sendo importante. Mas nenhum país cresce de forma saudável quando o crédito substitui a renda e o trabalhador passa mais tempo pagando juros do que realizando projetos de vida.

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