InícioBrasilO bilionário mercado das camisas falsas da seleção brasileira

O bilionário mercado das camisas falsas da seleção brasileira

Publicado em

spot_img

A camisa falsa da seleção brasileira de futebol virou a parte mais visível de um mercado que não se limita ao torcedor que procura uma versão mais barata para assistir à Copa do Mundo. Por trás da “réplica” vendida em lojas populares e na internet, há uma cadeia de falsificação que passa por cargas importadas, comércio digital, perda de arrecadação e concorrência direta com empresas que atuam dentro da lei.

A Receita Federal diz que ainda não há um balanço nacional sobre apreensões ligadas especificamente à Copa do Mundo ou à seleção brasileira de futebol. Mesmo assim, uma amostragem feita pelo órgão até maio reúne mais de 965,5 mil camisas com possível violação de direitos de propriedade intelectual. O recorte inclui operações no Porto de Santos, no Rio de Janeiro, em Boa Vista e em São Paulo.

Somente essa amostragem tem valor de mercado estimado em cerca de R$ 50 milhões, de acordo com a Receita. O impacto em tributos que deixariam de ser pagos chega a R$ 39 milhões. O órgão informa que as apreensões fazem parte da rotina de fiscalização, mas reconhece que produtos falsificados ligados a grandes eventos ou itens “da moda” costumam aparecer com mais força.

No caso das camisas apreendidas pela Receita, a origem é majoritariamente externa. O órgão explica que sua atuação ocorre sobre casos de contrabando e descaminho de mercadorias vindas de fora do país. Não há, porém, dados precisos sobre os países de origem mais frequentes.

A forma de entrada varia. Em algumas operações, as peças aparecem ocultas entre outros produtos. Em outras, os responsáveis sequer tentam escondê-las.

Pirataria consome um terço do mercado esportivo nacional

Estudo mais recente da Associação pela Indústria e Comércio Esportivo (Ápice) ajuda a dimensionar o tamanho do problema fora dos depósitos da Receita. Em 2025, o Brasil consumiu 225,1 milhões de produtos esportivos não originais, alta de 29,8% sobre 2023.

A pirataria já representa 34% do mercado esportivo brasileiro. O prejuízo potencial ao setor formal foi estimado em R$ 31,8 bilhões, com R$ 7,4 bilhões em impostos não recolhidos.

No recorte de camisas de futebol, foram 18,1 milhões de peças falsificadas consumidas no ano passado. O número representa 30% do mercado de camisas de futebol e um prejuízo potencial de R$ 3,6 bilhões. A pesquisa não separa entre camisas da seleção brasileira, clubes nacionais, times estrangeiros ou outras seleções. O recorte considera qualquer peça ligada ao futebol, de jogo, treino ou passeio.

Diretor-executivo da Ápice, Renato Jardim diz que a Copa amplia a procura por camisas de seleções, mas afirma que ainda não há uma estimativa fechada sobre o tamanho desse avanço em 2026. O movimento, explica ele, não significa apenas crescimento direto do mercado. Há também um efeito de substituição, já que o torcedor tende a comprar mais camisas de seleções no período do Mundial, enquanto o consumo de camisas de clubes pode perder força temporariamente.

VEJA TAMBÉM:

Preço alto pesa na decisão do consumidor

O preço é uma parte importante dessa engrenagem. No estudo da Ápice, 69% dos consumidores apontaram o valor mais baixo como motivação para comprar produto esportivo pirata.

Jardim reconhece que o custo da camisa oficial pesa na decisão de compra e associa parte disso ao chamado “custo Brasil”, ou seja, o conjunto de impostos, burocracias e encargos que encarecem a produção e a venda formal no país. “Sim, o ‘custo Brasil’ tem um peso enorme nisso”, afirma.

De acordo com o diretor da Ápice, camisas oficiais vendidas dentro do mercado formal carregam uma carga tributária elevada, especialmente quando são importadas. Ele diz que, nesses casos, os impostos podem superar metade do preço final ao consumidor. Para peças produzidas no Brasil, a carga também seria alta, mas menor.

Esse peso tributário, na avaliação de Jardim, ajuda a explicar a distância entre a camisa oficial e a peça falsificada. Ainda assim, ele afirma que o preço não elimina o prejuízo provocado pela pirataria. “O maior prejudicado de toda essa história é o consumidor”, afirma.

Produtos falsificados podem estar ligados não só à importação irregular, mas também à sonegação, empresas de fachada, lavagem de dinheiro e redes criminosas.

Quem compra uma peça pirata paga menos, mas recebe um produto de qualidade inferior, com baixa durabilidade, sem garantia e sem canal formal para troca ou contestação. Jardim também aponta risco ligado ao uso de produtos químicos em etapas como acabamento, tingimento e estamparia. “Ele não tem a quem reclamar e não tem com quem trocar”, diz.

A Receita também reconhece que muitos consumidores consideram alto o preço das camisas oficiais, mas afirma que combater a falsificação não é defender preço alto. O combate à pirataria, sustenta o órgão, passa pela defesa da legalidade, da arrecadação, dos empregos formais e da concorrência justa. Produtos falsificados podem estar ligados não só à importação irregular, mas também à sonegação, empresas de fachada, lavagem de dinheiro e redes criminosas.

VEJA TAMBÉM:

A cadeia por trás da camisa falsa

Jardim vê a pirataria como parte de uma cadeia maior. Para ele, a imagem do ambulante vendendo uma peça na esquina já não dá conta de explicar o funcionamento desse mercado.

“A pirataria está diretamente relacionada a organizações criminosas”, sinaliza. “O ambulante é meramente um pequeno ator ali, sendo usado por uma organização geralmente muito maior.”

O avanço do comércio digital ampliou o alcance desse mercado. A Ápice aponta que 41% das camisas de futebol falsificadas foram vendidas por canais digitais em 2025. Jardim avalia que essa curva deve se inverter em 2026, com o online se tornando o principal canal de escoamento desse tipo de produto. “Esse é o maior desafio que nós temos nesse momento. O canal online cresce e cresce muito rapidamente”, afirma.

Para ele, o problema deixou de estar apenas nos grandes carregamentos fiscalizados em portos e aeroportos. Parte da pirataria passou a circular por pequenas encomendas, vendidas por marketplaces, redes sociais e operações transfronteiriças.

Jardim defende mudanças na legislação para ampliar a responsabilidade de plataformas digitais na identificação de anúncios ilegais, vendedores reincidentes e produtos falsificados. Também vê espaço para uso mais intenso de inteligência artificial na derrubada desse tipo de oferta.

“Não existe bala de prata”, diz. Para o diretor da Ápice, marcas, plataformas e poder público precisam atuar de forma coordenada, porque cada barreira criada pelo mercado legal tende a ser respondida com novas estratégias pelos falsificadores.

Quando a fiscalização fala em proteger a indústria nacional e o mercado legal, o alvo não é apenas uma marca específica. A Receita diz que essa proteção alcança toda a cadeia formal do setor, incluindo empresas que produzem, importam, distribuem e vendem dentro da lei.

A Fisia, distribuidora oficial da Nike no Brasil, foi procurada pela reportagem da Gazeta do Povo, mas optou por não se manifestar neste momento. O Conselho Nacional de Combate à Pirataria, vinculado ao Ministério da Justiça, também foi procurado, mas não respondeu até esta publicação.

E o que acontece com as peças falsificadas depois que elas são apreendidas? A Receita diz que, quando possível, as camisas são descaracterizadas, com retirada de marcas e elementos que violem direitos de propriedade intelectual e encaminhadas para doação.

Quando esse tratamento não é viável, a mercadoria é destruída. Na prática, a camisa falsa só ganha uma segunda chance se deixar de imitar a original.

VEJA TAMBÉM:

Veja a matéria completa aqui!

Últimas Notícias

Morre mãe de Didier Deschamps, técnico da França

A seleção da França terá uma mudança no comando para a partida contra a...

Marvel confirma substituto do Homem de Ferro em novo filme

Marvel confirma substituto do Homem de Ferro em novo filme - CanaltechCanaltech - Notícias...

Trump diz que Irã não cobrará taxas em Ormuz, apesar de declarações contrárias

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira, 24, que o Irã...

Veja Também

Morre mãe de Didier Deschamps, técnico da França

A seleção da França terá uma mudança no comando para a partida contra a...

Marvel confirma substituto do Homem de Ferro em novo filme

Marvel confirma substituto do Homem de Ferro em novo filme - CanaltechCanaltech - Notícias...

Trump diz que Irã não cobrará taxas em Ormuz, apesar de declarações contrárias

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira, 24, que o Irã...