InícioMundoNas ruas da Venezuela, reportagem de VEJA mostra o impacto da tragédia...

Nas ruas da Venezuela, reportagem de VEJA mostra o impacto da tragédia dos terremotos

Publicado em

spot_img

Ler Resumo

A meia hora de carro de Caracas, La Guaira está encarapitada no extremo norte do litoral venezuelano, onde o Mar do Caribe pinta o horizonte de turquesa e as praias de areia branquíssima atraem visitantes de toda parte e até do exterior, pois o principal aeroporto internacional do país se encontra logo ali. Entre resorts, pousadas, prédios residenciais e habitações populares, o segundo maior bolipuerto, como anunciam as placas dos portos “bolivarianos” do Estado, serve de porta de entrada marítima para a capital. Tudo isso, no entanto, ficou no passado — La Guaira é hoje um cenário apocalíptico de dor e destruição. Quase não restou pedra sobre pedra depois que, na noite de quarta-feira 24, dois terremotos consecutivos, de magnitude superior a 7 graus e com 39 segundos de diferença, fizeram da cidade o epicentro de uma devastação que se alastrou por sete dos 23 estados da Venezuela. Uma centena de edifícios, alguns de quinze andares, vieram abaixo como castelos de cartas, ceifando milhares de vidas e desabrigando os moradores.

Por falta de espaço no necrotério, a calçada à beira-mar virou depósito de cadáveres retirados das montanhas de destroços, já em decomposição sob o calor caribenho de mais de 30 graus. No cais, famílias faziam fila para percorrer o desfile macabro e tentar reconhecer os corpos de parentes desaparecidos, uma busca desesperada que se repetia em outros pontos — o município virou um necrotério a céu aberto, com mortos espalhados pelas ruas, cobertos com sacos pretos, exalando cheiro pútrido. “A ajuda chegou tarde demais”, lamenta Adriana Rojas, 28, que escapou por um triz quando o conjunto habitacional onde morava, construído na era Hugo Chávez, desabou. Precisou desenterrar ela mesma a vizinha, já sem pulso. Na desalentada Venezuela, assolada por anos de ditadura, privações e êxodo em massa, a falta de tudo — resgate, abrigo, assistência, recursos — exacerbou os contornos de uma catástrofe que, até quinta-feira 2, contabilizava mais de 2 000 mortos, 10 000 feridos e, a faca que revira na ferida, cerca de 50 000 desaparecidos.

DEVASTAÇÃO - Vista aérea: desabamento de edifícios de até quinze andares
DEVASTAÇÃO – Vista aérea: desabamento de edifícios de até quinze andares (Cem Tekkesinoglu/Anadolu/Getty Images)

A reportagem de VEJA percorreu por quatro dias as ruas de La Guaira e de Caracas, onde a escala da destruição também salta aos olhos. Lá, em Altamira, um dos bairros mais elegantes e agitados, treze pisos achatados entre o térreo e o último andar reduziram o edifício histórico Petúnia a uma pilha de pedaços de concreto. Por milagre, equipes de resgate conseguiram retirar dos escombros dezoito pessoas com vida. Essa e outras histórias semelhantes, como a de Dayana Patiño, que reapareceu, após trinta horas soterrada, abraçando o filho de 18 dias, alimentam a busca árdua de quem se agarra à esperança de rever entes queridos. “Enquanto ele estivesse vivo, eu também precisava ficar”, disse a jovem mãe. Passada mais de uma semana, porém, a janela crucial de 72 horas para encontrar gente respirando sob os escombros se fechou, reabrindo apenas em raros e espantosos resgates. “Só quero poder enterrar minha irmã com dignidade”, demanda Flor Caraballo, 60, que já perdeu a conta de quantos necrotérios visitou no afã de recuperar o corpo de Marisela, do cunhado e dos sobrinhos, que viviam em um prédio em La Guaira.

A desordem dos serviços públicos na reação à catástrofe, produto de décadas de má gestão, sucateamento dos serviços essenciais e uma crise econômica que, na última década, viu o PIB venezuelano recuar 70%, dá contornos ainda mais cruéis ao drama humano. Equipes de resgate reviraram os destroços, nos primeiros dias, com pessoal reduzido e sem geradores ou equipamentos cruciais — a exemplo de câmeras de fibra óptica, aparelhos de detecção sonora, rádios de alta frequência. Mais de trinta países despacharam maquinário e um contingente de 2 000 socorristas obrigados a tomar decisões impossíveis sobre onde concentrar esforços, dada a extensão dos danos — uma análise da Nasa calcula que 60 000 edifícios desabaram. “Foi uma devastação ímpar, devido tanto ao sismo duplo quanto à situação econômica e social já vulnerável da Venezuela”, avalia o geólogo Dean Whitman, da Universidade Internacional da Flórida. O cenário que se desenha, se confirmado, coloca os tremores gêmeos no triste pódio dos dez terremotos mais devastadores no planeta ao longo do último século, um rol cujo desolador recorde pertence ao Haiti, com 300 000 mortes, em 2010.

Continua após a publicidade

À ESPERA DE UM TETO - Moradora de La Guaira, Alejandra Rujano, 32, aguarda o governo indicar um abrigo para que possa sair da calçada onde acampa com os filhos e empilha os poucos pertences que conseguiu salvar. “Só quero estar em um lugar seguro”, diz.
À ESPERA DE UM TETO – Moradora de La Guaira, Alejandra Rujano, 32, aguarda o governo indicar um abrigo para que possa sair da calçada onde acampa com os filhos e empilha os poucos pertences que conseguiu salvar. “Só quero estar em um lugar seguro”, diz. (Santiago MartÍnez/.)

Hospitais que já lutavam com escassez de insumos e funcionários antes do desastre viram a crise se elevar à última potência depois dos sismos. “Faltam analgésicos e antibióticos, eletricidade e água para procedimentos e higiene. Entramos em colapso total”, afirmou a VEJA Janeth Márquez, diretora-executiva da Cáritas na Venezuela. Ao menos 38 unidades hospitalares em todo o país sofreram, elas mesmas, danos significativos em sua estrutura e três tiveram que interromper sua atividade. A cirurgiã plástica Giselmar Soto conta que foi acionada emergencialmente para reforçar a equipe de trauma na linha de frente no Hospital Clínico da Universidade Central da Venezuela. “Não temos auxiliares treinados. Entre os poucos que somos, fazemos revezamento nas operações urgentes”, relatou a VEJA.

A CÉU ABERTO - Identificação de cadáveres no porto de La Guaira: necrotério ficou superlotado
A CÉU ABERTO - Identificação de cadáveres no porto de La Guaira: necrotério ficou superlotado (Federico Parra/AFP)
Continua após a publicidade

Os apagões da antiquada rede elétrica, que vinham dando alguma trégua nos últimos meses, voltaram a assombrar o país e a cortar a conexão com a internet no momento em que as redes sociais são a principal via para a troca de notícias entre as famílias. Quase 60% da população ficou sem sinal nas horas após os terremotos e agora ele vai e volta. Também há “escassez generalizada” de alimentos em La Guaira, segundo a agência da ONU para refugiados, Acnur. “As pessoas estão em pânico”, alertou a porta-voz do órgão, Carlotta Wolf, em meio a relatos de saques a lojas e residências que não desabaram. Canos estouraram e inundaram as ruas, dificultando ainda mais o acesso à água. “Muita gente fugiu com a roupa do corpo, então falta todo o básico: comida, sapato, material de higiene”, afirma Halima Hussein, coordenadora do Médicos Sem Fronteiras na Venezuela. A ONU estima em 7 milhões o número de desabrigados, o que representa um de cada quatro habitantes — 40% dos quais hoje perambulando na rua ou em parques públicos. “Não temos nada. Estou esperando para ver aonde o governo pode nos realocar”, disse a VEJA Alejandra Rujano, 32, que passou os últimos dias com camas, geladeira, fogão e mesa de jantar amontoados na calçada em frente à sua casa destruída em La Guaira, junto dos dois filhos. “Ao menos estamos vivos”, ressalta.

“FALTA DE TUDO” - A cirurgiã plástica Giselmar Soto (de calça branca), 37, atende vítimas de traumas causados pelos tremores, que não param de chegar. “Estamos sobrecarregados. Às vezes passo o dia sem comer”, relata
“FALTA DE TUDO” – A cirurgiã plástica Giselmar Soto (de calça branca), 37, atende vítimas de traumas causados pelos tremores, que não param de chegar. “Estamos sobrecarregados. Às vezes passo o dia sem comer”, relata (./Arquivo pessoal)

Desde 1900, nada tão destrutivo se via nessa fatia da América do Sul plantada sobre a junção de duas placas tectônicas cujo atrito faz a terra tremer. O chamado terremoto de San Narciso foi ainda mais intenso, abrindo fissuras no solo e provocando um tsunâmi, mas, como a maioria das pessoas vivia em casas térreas e comunidades dispersas, registrou saldo de 140 mortos. A Venezuela de hoje conta com grandes cidades repletas de arranha-céus, erguidos durante a bonança do petróleo nos anos 2000. Nos bairros pobres, as moradias são de barro e palha, e mesmo nos edifícios da classe média a alvenaria raramente dispõe de reforço de aço, que encarece a construção. Ao contrário do Japão, alojado no agitado Círculo de Fogo do Pacífico, que impõe rígidas normas antiterremotos nas obras civis e costuma atravessá-los sem danos e sem vítimas, cerca de 80% dos venezuelanos vivem sem maiores cuidados em áreas de elevado risco sísmico. A própria La Guaira já tinha sido devastada em 1999 por chuvas e deslizamentos que arrasaram bairros despreparados e deixaram mais de 10 000 mortos.

Continua após a publicidade

A batalha que começa agora para reerguer o que sucumbiu aos tremores, em um cenário já com tantas mazelas, vai exigir imenso esforço. Os prejuízos podem ultrapassar os 6,7 bilhões de dólares, equivalente a 6% do PIB venezuelano. O governo do Brasil enviou cinco voos humanitários da FAB e o ministro da Defesa, José Mucio, viajou a Caracas e ofereceu cooperação na reconstrução das vastas áreas atingidas. “A partir de agora, Brasil e Venezuela são um só país”, declarou, lembrando que dois cidadãos brasileiros morreram na tragédia. Vanessa Zacarias da Silva, 44, havia se mudado para La Guaira com o marido venezuelano, Henrique, fazia apenas dois meses e não resistiu aos ferimentos provocados pelo colapso parcial da casa onde moravam. “Estávamos fazendo planos para nos encontrar, depois de um ano afastados. Como não verei mais o seu sorriso?”, lamentou a VEJA seu irmão, Thiago Nogueira. Uma parede veio abaixo sobre o pastor mineiro Romildo Batista de Lima, 69, e a mulher, Carlha Nacarid, nascida lá. No momento do tremor, o casal estava em Caracas aguardando o voo de volta. Chegou a ser resgatado, mas ele não resistiu; ela quebrou a bacia e aguarda cirurgia. “O acaso é cruel. Dói pensar que poderíamos estar juntos agora”, reflete Jhulya Lima, sobrinha do pastor.

VAIAS - Delcy encontra vítimas: descontentamento com atrasos e falhas na prestação de assistência
VAIAS - Delcy encontra vítimas: descontentamento com atrasos e falhas na prestação de assistência (Venezuelan Presidency/AFP)

A presidente interina, Delcy Rodríguez, anunciou um fundo de 200 milhões de dólares para recuperação da tragédia, sustentado com recursos do FMI — um baque para a nação já enroscada em uma dívida pública de 240 bilhões de dólares. Liderado pela ex-vice de Nicolás Maduro desde a operação militar americana que o destituiu, em janeiro, o governo vinha tentando exercer o malabarismo de administrar a demanda popular por reformas sem perder o controle da máquina estatal e se adaptando a uma nova e submissa relação com os Estados Unidos — que prometeram 300 milhões de dólares em assistência. O rastro de destruição rompeu o equilíbrio frágil: nas ruas, o sentimento é de profunda indignação com a demora no socorro e a escassez dramática de suprimentos. “Nos abandonaram”, afirmou a VEJA Marisol Godoy, 23, que montou acampamento com a família ao lado da torre que soterrou a prima de 18 anos, Chantal, em Caracas.

Continua após a publicidade

FATALIDADE - Vanessa e o pastor Romildo: brasileiros perderam a vida na tragédia que se abateu sobre a Venezuela
FATALIDADE - Vanessa e o pastor Romildo: brasileiros perderam a vida na tragédia que se abateu sobre a Venezuela (Fotos/Arquivo pessoal)

Vaiada por populares no fim de semana, ao pisar no bairro em frangalhos de Chacao, Delcy viu seu índice de desaprovação subir 12 pontos em relação a abril. “A tragédia pode ser usada pelo governo para mobilizar a população em torno de um projeto nacional de recuperação, mas isso esbarra na realidade dura da atual crise”, avalia o cientista político venezuelano Tony Frangie Mawad. Meio esquecida no tabuleiro político local, a líder oposicionista María Corina Machado, refugiada na Cidade do Panamá, aproveita para tentar consolidar um movimento contra o chavismo e anunciou, mais uma vez, seu retorno à Venezuela. Ouviu da Casa Branca, outrora sua aliada, um retumbante “não”. “Donald Trump e Delcy estão em um jogo de ganha-ganha, em que o chavismo segue no poder e o governo americano dita as políticas econômicas”, explica Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Unifesp. Na pior das hipóteses, pode haver até um endurecimento do autoritarismo: as velhas engrenagens da repressão ressurgiram em La Guaira, que foi militarizada sob a justificativa de redução de riscos epidemiológicos, mas na prática dificultou a entrada de jornalistas e de quem quer prestar ajuda. Enlutados, feridos, desabrigados, os venezuelanos se ajudam como podem. Em um país em que tudo já é tão escasso, falta também esperança em um futuro melhor.

Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

Veja a matéria completa aqui!

Últimas Notícias

Alf-Inge Haaland: a trajetória do pai do craque e a rixa com Roy Keane

- O pai do Erling, Alf-Inge Haaland, também foi um ótimo jogador,...

Veja quais são os carros mais poluentes do Brasil em 2026

Veja quais são os carros mais poluentes do Brasil em 2026 - CanaltechCanaltech -...

Veja Também