O passado nunca está morto. Nem sequer passou, como dizia o mestre. Tempos atrás, a Universidade Católica Portuguesa recebeu em Lisboa o diretor do Museu Estatal Auschwitz-Birkenau para uma conversa com os alunos.
Uma história impressionou o auditório. Contou Piotr Cywiński que, anos atrás, recebeu um telefonema de um aposentado alemão que queria saber se o pai havia trabalhado no campo de extermínio. Toda a família lhe dissera que não: o pai fora um soldado na Frente Leste, obrigado a combater e a morrer pela tirania nazista.
Mas ele duvidava dessa versão. Queria, numa palavra, certezas.
O diretor do museu pesquisou o nome nos arquivos. Dias depois, devolveu o telefonema: o pai havia trabalhado em Auschwitz-Birkenau como guarda da SS.
Do outro lado da linha, silêncio. Segundos depois, um simples “obrigado”, provavelmente entre lágrimas.
“Foi nesse momento”, concluiu o dr. Cywiński, “que eu percebi claramente que o nosso conceito de vítima tinha de ser alargado.”
Lembrei a história quando soube que o jornal alemão Der Spiegel disponibilizou aos seus leitores uma ferramenta de busca para que sejam eles a pesquisar se os seus antepassados eram membros do Partido Nazista.
A razão da abertura não está na Alemanha; foram os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos que disponibilizaram os microfilmes com as 12 milhões de fichas partidárias que os soldados americanos encontraram em Munique no fim da guerra. O Der Spiegel, usando inteligência artificial, fez o tratamento dos dados e tornou a pesquisa mais eficaz.
Como explica o jornal, há um pouco de tudo: extremistas que estiveram com Anton Drexler e Adolf Hitler desde a primeira hora (1920-1923); e meros oportunistas que, por razões prosaicas de emprego e progressão na carreira, aderiram ao partido entre 1933, quando Hitler chegou ao poder, e 1945, quando o Terceiro Reich foi destruído.
Esse último grupo pode parecer menos nocivo do que os fanáticos ideológicos. Em todas as ditaduras, são esses espíritos volúveis que mais rapidamente aderem às estruturas do novo regime.
Engano. Recentemente, os historiadores Christian Gläßel e Adam Scharpf publicaram um livro notável sobre esse fenómeno –”Making a Career in Dictatorship”(Oxford University Press)–, tomando a Argentina como caso empírico.
Os trabalhos sujos –golpes de Estado, sequestros, torturas– foram feitos por homens ambiciosos com ansiedade de carreira. Imagino que o mesmo aconteceu no Brasil durante a ditadura militar. Certamente aconteceu em Portugal durante o Estado Novo.
Escrevi “homens” porque normalmente são eles os protagonistas: voltando ao caso alemão, as mulheres são minoria entre as fileiras nazistas. Entre 1925 e 1945, representam 14% da militância.
De qualquer forma, é preciso não levar longe demais a nossa “compreensão” pelos carreiristas. Em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, 6 milhões de alemães militavam no Partido Nazista. A Alemanha tinha 70 milhões de habitantes. Isso significa que a vasta maioria não vendeu a alma por um salário.
Na Alemanha de 2026, haverá famílias que vão descobrir, pela primeira vez, o verdadeiro passado dos seus “inocentes” e “heróis”. Uma revelação que oferece duas lições fundamentais.
A primeira é que tudo o que fazemos no presente acabará por ecoar no futuro dos nossos descendentes. Não os humilhar com as nossas sujeiras também é um ato de amor.
A segunda, aprendida numa manhã em Lisboa, é que devemos ampliar o conceito de vítimas.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

