InícioOpiniãoLula abandonou as bandeiras que marcaram sua trajetória?

Lula abandonou as bandeiras que marcaram sua trajetória?

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A política é também a arte da linguagem. E poucas frases produzidas por um líder experiente são ditas sem considerar seus efeitos. Ao afirmar, em conversa com representantes internacionais durante a reunião do G7, que “nunca fui esquerdista” e que “o mundo é do caminho do meio”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou reações imediatas entre apoiadores, opositores e analistas políticos. Mais do que discutir a sinceridade da declaração, talvez seja oportuno perguntar: por que dizer isso agora?

A declaração de Lula não parece representar uma revisão sincera de sua trajetória política, mas um movimento eleitoral calculado. Ao se desvincular do rótulo da esquerda justamente em um período de pré-campanha, o presidente busca ampliar seu alcance junto ao eleitorado moderado, tradicionalmente decisivo nas eleições brasileiras.

Paralelamente, ao longo dos últimos anos, Lula e seu campo político têm insistido em enquadrar Jair Bolsonaro e seus apoiadores sob a etiqueta de “extrema direita”, reservando aos adversários a imagem da radicalização, enquanto procuram reposicionar a si próprios como representantes de um suposto centro pragmático. Trata-se de uma estratégia política conhecida: suavizar a própria identidade ideológica para conquistar eleitores indecisos e, ao mesmo tempo, manter os opositores confinados em um polo percebido como mais distante do eleitor mediano.

Ao afirmar que nunca foi esquerdista, o presidente envia sinais ao mercado financeiro, ao empresariado, a eleitores independentes e até a antigos apoiadores de correntes mais conservadoras. Em outras palavras, tenta ocupar simbolicamente um território eleitoral disputado

Lula construiu sua carreira apoiado por sindicatos, movimentos sociais, intelectuais progressistas e partidos historicamente identificados com a esquerda. Foi fundador do Partido dos Trabalhadores, legenda que, desde sua origem, reivindica pautas associadas à ampliação de direitos sociais, ao fortalecimento do Estado e à redução das desigualdades. Durante décadas, seus eleitores mais fiéis orgulharam-se justamente dessa identidade, utilizando o termo “esquerda” não apenas como posicionamento político, mas como elemento de pertencimento e distinção em relação aos adversários.

Diante desse histórico, a afirmação de que nunca foi esquerdista causa estranhamento. Não porque um político esteja impedido de reinterpretar sua própria trajetória, mas porque a declaração parece dialogar menos com a militância tradicional e mais com setores do eleitorado que rejeitam radicalismos, demonstram cansaço com a polarização e se identificam com propostas pragmáticas.

Afinal, a esquerda, em sua formulação clássica, costuma defender maior intervenção estatal na economia, políticas redistributivas e mecanismos de proteção social mais robustos. A direita, por sua vez, enfatiza a liberdade econômica, a redução do tamanho do Estado, a responsabilidade fiscal e valores conservadores em determinadas agendas. A centro-direita procura equilibrar princípios de mercado com políticas sociais focalizadas, enquanto o centro político frequentemente se apresenta como espaço de moderação, negociação e busca por consensos.

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No Brasil contemporâneo, entretanto, tais categorias tornaram-se mais fluidas. Muitos eleitores escolhem candidatos menos por convicções ideológicas e mais por avaliações sobre gestão, capacidade de entrega de resultados, percepção de estabilidade econômica e identificação pessoal. Não por acaso, pesquisas sucessivas indicam que uma parcela expressiva da população prefere candidatos considerados moderados.

Ao afirmar que nunca foi esquerdista, o presidente envia sinais ao mercado financeiro, ao empresariado, a eleitores independentes e até a antigos apoiadores de correntes mais conservadoras. Em outras palavras, tenta ocupar simbolicamente um território eleitoral disputado: o do cidadão que deseja políticas sociais, mas teme aventuras econômicas; que valoriza estabilidade institucional, mas rejeita discursos ideológicos mais contundentes.

Políticos experientes como Lula sabem que identidades ideológicas podem ser relativizadas quando a construção de maiorias exige flexibilidade discursiva; é o “dançar conforme a música”. Camuflam-se como camaleões: ajustam o tom, suavizam bandeiras e adaptam a narrativa conforme o público e as circunstâncias, quando necessário e conveniente. E as eleições estão aí.

Marcelo Tostes é conselheiro federal da OAB e CEO do escritório Marcelo Tostes Advogados.

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